Pai de blogueira

Ok, o Dia dos Pais foi há exatamente uma semana. Em tempos internéticos isso provavelmente equivale a quase uma ERA. Mas isso eu tinha que colocar aqui, tinha que postar. Pra resumir, meu dia dos pais foi (tirando a distância), bastante normal. Teve saudade, amor via webcam e texto de homenagem. O legal mesmo foi que dessa vez teve uma surpresa: papai Boni dando entrevista pro Portal Vírgula!

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Filhota blogueira e papai modernoso

Aí foi quando trocamos os papéis. Quem ficou toda bobona só de olhar fui eu. A matéria do site é simples, os pais de blogueiros deram depoimentos curtos. Mas só de ver meu pai marcando presença (e o depoimento FOFO dele), já me derreti. O dia é dos pais, mas quem ganha é a filha. Felicidade é isso, né não?

O depoimento dele. Orgulho é você, pai.

Pai de menina.

Quem lê meu singelo blog sabe: falar do meu pai nunca foi tarefa fácil. Mais difícil que isso, era aceitar diariamente minha relação conturbada com o véio. Sendo assim, em todo mês de agosto eu saía por aí questionando comercial de dia dos pais mais do que padre em tempo de inquisição. Achava tudo aquilo uma besteira, achava que ficava longe da realidade. Até que fui eu quem ficou longe. E, por incrível que pareça, aquela realidade questionável ficou perto.

Meu pai veio me visitar dia desses. Pela primeira vez, eu que abri a minha casa pra ele. Eu que perguntei se ele estava com fome. Eu que pedi pra que ele ficasse à vontade. Ambos não pareciam entender nada do que estava acontecendo. Mas, cá pra nós, finalmente tinha acontecido: a gente se enxergou. Ele como pai, eu como filha. Uma constatação óbvia, mas totalmente digna dos antigos comerciais mentirosos. Totalmente real.

E assim, de repente,como essas coisas que acontecem quando a gente tá vendo Faustão no domingo, eu vi o homem engraçadinho que eu meu pai é. Vi o jeito como ele insiste em perguntar 500 vezes se eu botei o guarda-chuva na bolsa; vi os trocadilhos bobinhos que ele faz só pra me fazer rir à toa; vi graça na insistência dele em ser um pai muito moderno, internético e, finalmente, presente. Pra mim, só pra mim.

Depois de ver tanta coisa, o melhro foi ver que era possível. Que esse amor não só existia, como também émaior do que eu imaginava. Que, para as tantas histórias que ouvi por aí de pais distantes, finais felizes não são exclusivos de comerciais românticos. Muito menos dos começos. E apesar de já fazer tanto tempo, a nossa começa agora.

Onda.


Tarde ensolarada de 2002.


Na praia da Joaquina, em Florianópolis-SC, tudo o que se via eram turistas avermelhados, crianças correndo com a bunda cheia de areia, o cara dos churros e eu, com uma prancha emprestada debaixo do braço e aquele olhar ao infinito.

Jurando que saberia surfar.

Pois sabe como é verão, as vontades afloram. Ainda mais as dessa recente moradora, que ainda não controlava bem o entusiasmo de morar há 10 minutos daquele marzão gelado. Assim, com essa coragem que só tem quem não conhece o tamanho do perigo, me joguei. Sozinha. Mar e eu.

Nadei, bati os pés e ralei a barriga toda na prancha. Foi assim, graciosa como um leão marinho, que aos poucos consegui me ver feliz da vida acelerando em cima de uma onda. pela primeira vez Ela vinha, me jogava, eu boiava, esperava a próxima. Que lindo!Crente que tudo ia bem, me sentia o próprio surfista prateado.

E há sérios problemas em achar que se sabe alguma coisa demais, quando na verdade é de menos. Pelo menos foi o que notei alguns dias depois, quando, cansada do vai e vem repetitivo, decidi que iria mais fundo. Eu, com toda a minha habilidade da surfista havaiana, acreditava ser muito capaz de pegar ondas grandes e vir do meio do mar com velocidade que me fizesse ir mais rápido que os meus próprios problemas.

Aí me joguei. Sozinha. Mar e eu.

E o que se viu a seguir poderia muito bem ser o próximo comercial de lava-roupas.

O azul ficou preto, o céu rodou. Me afoguei. Em poucos segundos só se via uma criatura ofegante e louca tossindo na areia da praia, com um punhado de gente ao redor.

Após esse episódio ridículo, passou-se um tempão e eu larguei a prancha.
O que não quer dizer que as ondas pararam.

Independente do cenário paradisíaco ou emparedado, elas sempre vêm pra me dizer que eu não nasci pra ser um poste. Eu não nasci para a estabilidade. Algumas vêm leves, pra eu boiar tranquila e gostar das mudanças da vida. Outras quebram na perna, pra me deixar esperta e lembrar que onda mole também fura.

O problema é que mesmo gostando das ondas (e às vezes até chamando por elas), eu ainda cometo o erro de achar que posso encará-las.
E dia desses veio uma grande. Veio de repente, tipo tsunami. Quebrou com força, me jogou pra longe.

E, por mais que eu realmente acreditasse que a enfrentaria, por mais que eu tivesse os dois pés fincados na terra, tudo o que vi foi o velho interior da lava-roupas. Rodei, tremi, acordei gelada. Me afoguei no seco. Me condenando por escolher uma velocidade que só me avançou na direção dos problemas. Rindo da minha própria e antiga piada de achar que sei demais.

No fim das contas, é só mais um dia de praia. Mais um aprendizado pra me fazer medir distâncias e aumentar o fator de proteção solar. Talvez eu deva agarrar na velha prancha, talvez eu aprenda a enfrentar ondas no braço. Hoje tô longe da praia, mas tudo o que eu sei é que o oceano continua salgado e que mesmo depois daquela onda, tudo o que quero é continuar nadando.

Porque não há nada mais normal para um peixe fora d’água do que querer voltar pro mar.