À mão armada

Olha, longe de mim falar sobre isso. Há quem diga – e eu concordo – que levantar o assunto atrai justamente esse tipo de coisa. Fora que, toda a atmosfera de amor e vídeos bregas que andou reinando por aqui nada tem a ver com um título frio desses.

PORÉM,  me diga como, COMO ignorar o dito cujo, quando só faltou colocarem uma arma na minha mala  assim que anunciei o lugar onde estaria minha nova morada? 

"São Paulo? Tu tá é doida. Lá é que mora o perigo"

E aqui estamos, perigo e eu, convivendo juntos. Aprendendo juntos. Porque se tem alguém que entende de propaganda, é ele. Veja bem: o perigo pode até não ser tão grande, mas ele se venderá como algo enorme. Ele comprará todos os espaços do horário nobre. Estará na Internet, no jornal, muitas vezes até de graça. Por fim, acabará numa ligação diária da minha mãe que só vai dormir se eu disser que tô bem, tô viva e evitando andar sozinha na rua.

E o perigo convence. Ele define o que eu levo na bolsa e o que interpretar do comportamento de estranhos. Ele escolhe os amigos que terão coragem de me visitar nas férias. Ele tá lá, faz o que quer na cidade e você que se vire para conviver com ele. Tipo cunhado chato.

Quem mora aqui, já não liga muito. Assite o Datena gritando com bandido e dá até risada. Já quem é de fora, como eu, às vezes se vê se adequando às regras de uma nova tribo, com seus costumes e manejos pra se dar bem. Lei da selva, bem.

O fato é que pouco se pode fazer diante de algo assim, onipresente. Talvez torcer, se cuidar, e contar com a oração materna pra que nada aconteça (o que, segundo meu dentista, é tão provável quanto ganhar na megasena). Na minha opinião, o medo também é uma arma, e dessas a mala veio cheia. Minha única preocupação diária é perceber quem é que ela atinge.


Longe

Depois de 24 anos de convivência, era de se esperar que o clima ficasse mesmo tenso depois que a mala de viagem passou a ser usada com certa frequência.
 
E ficou. Porque convenhamos, no começo foram visitas esporádicas, um evento aqui, outro lá. Depois surgiu o freela de dois meses, que trouxe saudade e certo medo do futuro. Daí pra frente a coisa foi mudando. namorado foi mudando. Quando a gente viu, eu também já tinha data pra mudar pra São Paulo – e dessa vez, pra ir de vez.

Se eu nascesse em uma ninhada de tartarugas eu não ligaria. Se fosse um filhote de leão, não daria a mínima. Mas sendo humana e RAINHA DO DRAMA que sou, estou há meses digerindo essa história de sair de casa. De morar a muitos estados de distância. De depender do telefone pra ter contato com gente que, pela minha vida toda, esteve sob o mesmo teto que eu.

E vou te dizer, sou muito dependente. Tenho uma relação muito próxima com os meus pais e com a risada cura-tudo da minha mãe. Acho lindo quem tem a família como base. Mas pra mim, família também fica no topo. E por mais bonitas e dignas de comercial de margarina que essas idéias pareçam, em horas como essas é que a margarina azeda.

Pois lá vai ela morar com o namorado. Abandonar seu quarto bagunçado e ligar pra mãe pra saber como se faz arroz. Pra saber como se faz pra lavar cortinas. Saber como se faz pra crescer nesse mundo maluco. 

Vinte e quatro anos na cara e cá estou eu precisando de colo. Um colo onde meu tamanho já não cabe, nem o das minhas ambições. Colinho que também ofereço pra quem, de repente, vê aquelas antigas perninas gordinhas andando para uma direção contrária à de casa.

E tudo pode ser mesmo contrário, menos o amor que tenho por eles. Um amor que, de tão grande, passou a ser interestadual. E que vai fazer cada um deles se mudar junto comigo. Rumos são só rumos. Ter uma família pra voltar é o que me faz ir. Sem nunca sair dela.