PORÉM, me diga como, COMO ignorar o dito cujo, quando só faltou colocarem uma arma na minha mala assim que anunciei o lugar onde estaria minha nova morada?
"São Paulo? Tu tá é doida. Lá é que mora o perigo"
E aqui estamos, perigo e eu, convivendo juntos. Aprendendo juntos. Porque se tem alguém que entende de propaganda, é ele. Veja bem: o perigo pode até não ser tão grande, mas ele se venderá como algo enorme. Ele comprará todos os espaços do horário nobre. Estará na Internet, no jornal, muitas vezes até de graça. Por fim, acabará numa ligação diária da minha mãe que só vai dormir se eu disser que tô bem, tô viva e evitando andar sozinha na rua.
E o perigo convence. Ele define o que eu levo na bolsa e o que interpretar do comportamento de estranhos. Ele escolhe os amigos que terão coragem de me visitar nas férias. Ele tá lá, faz o que quer na cidade e você que se vire para conviver com ele. Tipo cunhado chato.
Quem mora aqui, já não liga muito. Assite o Datena gritando com bandido e dá até risada. Já quem é de fora, como eu, às vezes se vê se adequando às regras de uma nova tribo, com seus costumes e manejos pra se dar bem. Lei da selva, bem.
O fato é que pouco se pode fazer diante de algo assim, onipresente. Talvez torcer, se cuidar, e contar com a oração materna pra que nada aconteça (o que, segundo meu dentista, é tão provável quanto ganhar na megasena). Na minha opinião, o medo também é uma arma, e dessas a mala veio cheia. Minha única preocupação diária é perceber quem é que ela atinge.