
Tarde ensolarada de 2002.
Na praia da Joaquina, em Florianópolis-SC, tudo o que se via eram turistas avermelhados, crianças correndo com a bunda cheia de areia, o cara dos churros e eu, com uma prancha de bodyboard emprestada debaixo do braço e aquele olhar ao infinito.
Jurando que saberia surfar.
Pois sabe como é verão, as vontades afloram. Ainda mais as dessa recente moradora, que ainda não controlava bem o entusiasmo de morar há 10 minutos daquele marzão gelado. Assim, com essa coragem que só tem quem não conhece o tamanho do perigo, me joguei. Sozinha. Mar e eu.
Nadei, bati os pés e ralei a barriga toda na prancha. Foi assim, graciosa como um leão marinho, que aos poucos consegui me ver feliz da vida acelerando em cima de uma onda. Ela vinha, me jogava, eu boiava, esperava a próxima. Que lindo!Crente que realmente sabia surfar, me sentia o próprio surfista prateado.
E há sérios problemas em achar que se sabe alguma coisa demais, quando na verdade é de menos. Pelo menos foi o que notei alguns dias depois, quando, cansada do vai e vem repetitivo, decidi que iria mais fundo. Eu, com toda a minha habilidade da surfista havaiana, acreditava ser muito capaz de pegar ondas grandes e vir do meio do mar com velocidade que me fizesse ir mais rápido que os meus próprios problemas.
Aí me joguei. Sozinha. Mar e eu.
E o que se viu a seguir poderia muito bem ser o próximo comercial de lava-roupas.
O azul ficou preto, o céu rodou. Me afoguei. Em poucos segundos só se via uma criatura ofegante e louca tossindo na areia da praia, com um punhado de gente ao redor.
Após esse episódio ridículo, passou-se um tempão e eu larguei a prancha.
O que não quer dizer que as ondas pararam.
Independente do cenário paradisíaco ou emparedado, elas sempre vêm pra me dizer que eu não nasci pra ser um poste. Eu não nasci para a estabilidade. Algumas vêm leves, pra eu boiar tranquila e gostar das mudanças da vida. Outras quebram na perna, pra me deixar esperta e lembrar que onda mole também fura.
O problema é que mesmo gostando das ondas (e às vezes até chamando por elas), eu ainda cometo o erro de achar que posso encará-las.
E dia desses veio uma grande. Veio de repente, tipo tsunami. Quebrou com força, me jogou pra longe.
E, por mais que eu realmente acreditasse que a enfrentaria, por mais que eu tivesse os dois pés fincados na terra, tudo o que vi foi o velho interior da lava-roupas. Rodei, tremi, acordei gelada. Me afoguei no seco. Me condenando por escolher uma velocidade que só me avançou na direção dos problemas. Rindo da minha própria e antiga piada de achar que sei demais.
No fim das contas, é só mais um dia de praia. Mais um aprendizado pra me fazer medir distâncias e aumentar o fator de proteção solar. Talvez eu deva agarrar na velha prancha, talvez eu aprenda a enfrentar ondas no braço. Hoje tô longe da praia, mas tudo o que eu sei é que o oceano continua salgado e que mesmo depois daquela onda, tudo o que quero é continuar nadando.
Porque não há nada mais normal para um peixe fora d’água do que querer voltar pro mar.
MCD LAB #1 e essa tal idéia de experimentar

É dela que saem os tombos, os aprendizados e os mini-afogamentos na Joaquina. Experimentar nem sempre é fácil, mas é sempre bom. Pensando em unir essa vontade de vivenciar o novo a expressões artísticas e musicais do meio alternativo, a MCD criou o projeto MCD LAB.
A proposta é reunir em um espaço tudo o que se refere a experimento e liberdade na comunicação, mostrando muita coisa boa que você talvez nem soubesse que existia.
Vão rolar exposições de artistas plásticos consagrados, pocket shows de músicos e DJs, workshops de produção musical e serigrafia... Pra resumir: a coisa vai estar boa e você não paga nada pra conhecer.
O MCD Lab # 1 acontece na Rua Desembargador Ferreira França em São Paulo, entre os dias 17 e 23 de Março de 2009, em um espaço livre e aberto das 14h às 22h, com Mesa de Bilhar, Internet, Open Sound e estúdio de tatuagem.