Dorothy Gale sabia bem o que era se mudar. Seja por meio de furacões ou pancadas na cabeça, lá estava ela mais uma vez viajando em suas vontades e aceitando com naturalidade o fato de "não estar mais no Kansas".
Pudera, Kansas era um porre. Era vazia, solitária, e seus dias por lá assumiam frequentemente uma coloração sépia. Não havia solução, senão a de sair correndo com sonhos e frustrações na bagagem. Da mesma forma como, inevitavelmente, acontece na vida de qualquer um que tem em si aquele bichinho da inconformação, aquela necessidade de "um pouco mais". Enfim, da mesma forma que aconteceu comigo.
Talvez por isso, durante anos, houve tanta identificação. Muito além do filme infantil, da história com moral e da trilha que embala novelas, havia minha admiração por ela: Dorothy era uma mulher ingênua, mas de coragem. Ela tinha receio da mudança, mas seguia adiante. E, em tantos anos de idas e vindas a Emerald City (já perdi a conta de quantas vezes vi "O Mágico de Oz"), mal sabia eu que nossas estradas de tijolos amarelos acabariam por se cruzar.
Meus sapatos estão longe de serem de rubis, mas assim como qualquer calçado, foram feitos pra andar. E, neste caso, a elegância do salto-alto já não me convém. Entram aqui minhas falhas de orgulho, mudanças voluntárias de emprego e a já conhecida insatisfação - a que alguns interpretam gentilmente como irresponsabilidade.
Tudo isso amarrado por um otimismo infantil, mas que, acredite: funciona. Simplesmente porque eu ainda não cansei de ir atrás do que é melhor pra mim.
Pode ser lindo para você, amigo aposentado, relaxar as pernas para o alto enquanto recobra memórias e vê o resto da vida passar em branco. Ou para você, adepto da vida simples e da lei do menor esforço, agarrar suas raízes e convencer-se diariamente que tudo podia estar melhor, mas que "tá bom assim". Pode ser lindo - e eu realmente acredito que seja. São escolhas, estilo de vida e ninguém tem a obrigação de querer viver como alpinista. Meu problema foi ter acreditado, em algum momento, que do alto a gente vê melhor.
Pode ser lindo para você, amigo aposentado, relaxar as pernas para o alto enquanto recobra memórias e vê o resto da vida passar em branco. Ou para você, adepto da vida simples e da lei do menor esforço, agarrar suas raízes e convencer-se diariamente que tudo podia estar melhor, mas que "tá bom assim". Pode ser lindo - e eu realmente acredito que seja. São escolhas, estilo de vida e ninguém tem a obrigação de querer viver como alpinista. Meu problema foi ter acreditado, em algum momento, que do alto a gente vê melhor.
Não só o mundo, mas principalmente nós mesmos.
Eis que agora estou aqui, com o Toto no braço e vontades no peito. Seguindo a estrada enquanto procuro o coração, o cérebro e a coragem que me faltam. Cogitando abandonar praia, sol, família, estabilidade e a segurança de saber exatamente o que vem amanhã - justamente por amar o fato de não ter idéia do que vem amanhã.
Não é seguro, não será fácil e meus calcanhares podem acabar batendo no final, enquanto fecho os olhos e repito que "não há lugar como o nosso lar". Mas, em uma fábula parecida, alguém já disse que o lar é onde o coração está. E para todos os efeitos, o meu está aqui.
São Paulo, pode me aceitar de volta. E nesse meio tempo, torce por mim.
Ps. Feliz 2009 pra nós. :)

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