
Basicamente eu trabalharia para um fotógrafo especialista em noivas, casamentos e modeletes. Em suma, mulheres felizes. E o trabalho era simples: tirar rugas da noiva, diminuir o braço da madrinha, enfim, usar o photoshop para dar às modelos a impressão de que realmente vieram perfeitas ao mundo. Cá pra nós: adorei! Duvido que alguém não goste assim de brincar de Deus. Porém, enquanto eu me divertia com o poder de deixar tudo mais bonito, logo fui percebendo que só sendo realmente santo pra manter essas mulheres contentes.
Primeiro teve a noiva da pá virada que se empipocava toda quando ficava nervosa. Resultado: 253 fotos de sarampo no altar para corrigir. Depois, veio aquele casal que resolveu fazer sessão com seu cachorro peludo. Rolaram na areia da praia, se abraçaram e dá-lhe Milena limpando três quilos de pêlos nas fotos. Mas o caso mais tocante – ou retocante (!) - para mim foi a tal da modelo com cicatriz de apendicite.
Sou muito profissional, sabe. Do tipo que vê cicatrizes de apendicite na foto e pronto, já apaga. Nada contra o gênero, mas era de praxe. E eu ia adivinhar que a menina tinha paixão pela marquinha? Apareceu lá, aos berros, perguntando quem tinha alterado sua natureza divina. “Ok, moça, fui eu”. Não gostei de refazer o trabalho, mas entendi o motivo. Ela tinha orgulho da cicatriz.
E quem não tem? O ex soldado de guerra tem. O coração curado, também. Cicatriz é tatuagem sem tinta, é sua história, e por pior que seja, representa superação. Algo como:”Tá aqui, machucou, doeu, mas tô nova”. Marcada, porque tudo nessa vida marca. De apendicites a paixonites. De queimadura de panela a coração congelado. De estágios nonsense a empregos escravizantes. Só tem cicatriz quem sobreviveu. No final das contas, a menina estava completamente certa. De certas cicatrizes a gente se orgulha. Outras, nem photoshop pra apagar.
:: Perdoem a blogueira relapsa. Ando trabalhando mais do que diabo em dia santo, então já viu, né? Vou tentar atualizar mais vezes, se a pauta da semana assim permitir...
:: Adorei a participação do pessoal nos comentários do último post. Estou respondendo tudo! É muito bom sentir que não estou falando com as paredes. Mas melhor que isso é ter contato com outras percepções. Portanto, pitaco no blog!








