
Às vezes me pergunto o porquê de se pagar psicólogos quando temos aí o bom e velho ponto de ônibus. Talvez seja ignorância minha fazer uma comparação tão duvidosa, mas é geralmente isso o que me vem à cabeça nessas manhãs de dias de semana. Basta que eu me posicione calmamente para esperar minha condução que é batata: surge alguma senhorinha querendo conversar.
Na maioria das vezes, acho ótimo. Ouvindo problemas alheios, o tempo passa mais rápido – e, os meus parecem menores – sem contar que, por alguns segundos, me divirto com a idéia de virar uma espécie de “ponto aconselhador” no meio da rua, escolhido para agüentar ouvir e opinar sobre dramas de doenças, filhos distantes, tarifas abusivas e “esse tempo louco”.
Pois bem. A última que me abordou vinha com uma doença complicada, um tal de refluxo – aliás, um "belo" assunto para a manhã. Tudo o que ela comia voltava, aquele horror. Depois de me encher de detalhes que não cairiam bem em nenhum horário (e nem no estômago da própria), vim pelo resto do percurso confabulando sobre o drama do bate-volta.
E descobri que eu também o tenho. Não raro, também engulo coisas que cismam em não permanecer no estômago. Coisas que o meu corpo rejeita, que passaram da validade, detalhes impossíveis de serem digeridos, mas que mantenho por pura teimosia e conformismo. Não demora muito e lá estou eu, na mais normal das situações, sentindo gosto de bile. Ele vem aos poucos, dando pequenos sinais. Vem sujo, me incomodando, me tirarando todas as forças. E eu sofro, reluto, tento até o final e me rendo: coloco pra fora. Mando embora o corpo estranho, a dor insistente, o amor doentio - aquilo que a minha fome jurava que eu precisava, mas que meu corpo insistia em ficar sem.
O problema da vida é que a gente insiste em teorizar. A gente tenta pegar nossos dias e enfiar num roteiro triunfante de novela. Tudo tem que ter sentido, todas as histórias um final feliz. Todo amor deve ser perfeito enquando dure, toda amizade uma prova de lealdade. E no meio de tanta perfeição planejada, de repente você sente. Você pára e percebe. No meio do teu conto de fadas, algo te fez preferir a bruxa. No meio do fluxo da estrada, de repente parece certa a contra-mão. E você conhece essa vontade, você sabe o que ela faz. Ela vem suja, incomodando, te tirando todas as forças. E você sofre, reluta, tenta até o final....até que se rende e a coloca pra fora.
Se liberta. Tira de você as teorias e tudo aquilo que os outros esperam. Tira a boa vontade, a maquiagem e a fantasia daquela menina que dança conforme a música. Lembra que do torto, alguém escreveu linhas certas. E manda a dor embora. Se um corpo faz isso espontaneamente, não faz sentido esperar para fazer também. Mas uma hora o ônibus vem, a teoria acaba. E a ação começa.
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Filho de peixe nem sempre é.
Imagina o quanto deve ser interessante nascer filha de alguém famoso como a Xuxa. Se no teu plano de vida estiver incluso o estrelato, podemos considerar o caminho feito - com as facilidades já alcançadas pela mãe (ou pai), conseguir a atenção dos holofotes será moleza (Sasha que o diga!). Por outro lado, toda essa "hereditariedade artística" pode se tornar um karma, ofuscando seu verdadeiro talento com julgamentos de nepotismo (vide Maria Rita, acusada no início de "copiar a mãe").Isso sem contar que às vezes o rebento pode insistir em procurar a sua veia artística, e tudo o que encontra é um fracasso aclamado em público. Talento é uma coisa que nem sempre se herda.
Olha, sinceramente, pra mim vale mais ser filha da Ana Amélia e permanecer feliz (e sem cobranças públicas) no anonimato. Mas se você pensa diferente, vai lá na Snackzine e confere essa discussão, que tá bem boa.
25 comentários:
Milena, pra alguns o ponto de ônibus realmente é suficiente. Mas pra outros o psicólogo é fundamental.
Até porque uma coisa é "senhorinha querendo conversar", e outra bem diferente é "senhorinha com depressão", por exemplo.
O texto, como sempre, muito bom.
=)
Kássira
Oi encontrei você no orkut, estudei no mesmo colégio que vc já faz um tempinho no Andronico, amei seu blog estou virando leitora assídua!
Como pode lembrar aqui em São Paulo as pessoas não se confidenciam tanto no ponto de ônibus mas sempre encontramos alguém que simplesmente quer conversar. Eu acho ótimo (na maioria das vezes).
Beijos e Parabéns!
Ótimo o texto!
Faz a gente pensar que muitas vezes os nossos grandes problemas precisam de soluções simples, como conversar com outra pessoa num ponto de ônibus.
"ide Maria Rita, acusada no início de "copiar a mãe""
No início? Eu acuso ela até hoje disso.
Eu odeio pessoas que puxam papo comigo na parada de ônibus, ehauhahuaehuaehuaehuaeuehuehuaeae... só acho suportável quando a pilha do MP3 Player acabou. Senão, só de ter que tirar o fone do ouvido já me irrita!
Eu ando com refluxo da nossa profissão. Vontade de botar tudo pra fora, de preferência em cima de alguém.
(estou na TPM, dá pra notar?)
=*****
Impressionante, Cíntia, você acertou meu motivo de refluxo de primeira :)
Por que será, heim? :D hh00h0
auhuahua..Hoje lá no banco uma senhora me contou todo o processo dela ficar sem retina e quase cega! O mais intrigante é que várias vezes ela repetia> a doença igual do filho do Roberto Carlos!! Acho que foi um modo de se valorizar diante da doença!..você acha q o ponto é uma clínica? Nada é apenas o meio para chegar ao fim> a boca do Caixa Preferêncial!
Maravilha de texto....
Ha coisas que a gente engole e ficam incomodabdo no estomago, e esse bate-volta se torna comum, até colocarmos pra fora,e livrarmos a garganta da oscilacao, ecoracao do peso.
Lindo, lindo.
O ponto de ônibus é bom, mas às vezes é chato, porque tem gente que acha que pode falar por toda eternidade que não vamos nos cansar.
=D
Acho que o importante - sempre - é não negar os sinais do "corpo". Ele com certeza sabe mais do que a gente. Foi como vc disse: "Se um corpo faz isso espontaneamente, não faz sentido esperar para fazer também".
Lutar contra, no longo prazo, não faz bem pra "saúde"...
Bela forma de ligar assunto com o que a gente sente perante certas coisas. Infelizmente temos que engolir algumas coisas, mas não somos obrigadas a aceitá-las. Acho que é essa a parte que me conforta.
Beijinhos ;*
Adorei o texto Milena!:)
De verdade,parabéns pelas palavras. Já te acompanho faz um tempo!E admiro muito seu trabalho e suas idéias!
Quanto ao "bate-volta", acredito que o grande desafio está nessa pequena expressão!
E eu colocaria um "grand Canyon" entre estas, "bate-absorve-volta".
E essa do meio é o árbitro do jogo. Ela que decide o que te fará mal ou bem. Não culparemos apenas o volta! Senão a graça do "digerir" não faria sentido algum!
Obrigada pelo espaço, e continue com muita luz como já és!
;)
Carol.
O sapo é o que nos tornamos depois de aceitarmos a verdade?
A minha pergunta deve ser óbvia, não?
@Caçador de Mim: prefiro pensar que o sapo é o que a gente coloca pra fora. O que deixamos de engolir quando damos prioridade a nossos valores e intuições. Exige coragem, mas o alívio vale a pena.
No Matrix o "Oráculo" era uma senhorinha!
A Milena comento no meu blog! :D que chiiique! *-*
pois é, qto ao que você falo eu já tô perdendo a esperança das pessoas se concientizarem que existem diferenças entres as pessoas e devemos respeita-las seempre :)
ce tá de parabéns com seu blog! veio aqui toda semana ler as novidades \õ
beijos :*
Parabens pelo blog. Muito bom.
ótimo post.
maurizio
Milena, preciso falar contigo. Tô no gmail, ok? Me dá um alô assim que possível.
Obrigada! =)
Kássira
1) Esperar não é legal, ônibus então, que nunca tem horário certo é menos legal ainda.
2) Pq sempre tem que ser as velhinhas? Não pode ser as menininhas bonitinhas?
3) As vezes acho que preciso ter coragem p/ ter refluxo, ando engolindo muita coisa q não ta me fazendo bem, alguns sapos...
4) ODEIO a filha do DIDI!!! Ela é pior do MUNDO!! hehe
Nossa, eu não suporto a Sasha.
Muito chatinha haha
Também prefiro ser filha da minha mãe não-famosa!!
Beijos
Milena, as coisas que voce escreve no seu blog sempre se encaixam comigo, nao sei porque.
Amo tudo que voce escreve! Eu tambem tenho um blog, se voce tiver tempo, passa lá e da uma lida, seria importante pra mim!
Ótimo texto!
Beijos
Milena querida, senhoras, senhores, senhorinhas (que nome lindo encontraste!) e os jovens também, sem tirar as crianças, todos em algum momento precisamos conversar e quando aquele alguém que possa nos ouvir aparece, que festa! Parabéns por ouvir, por escrever, por seres quem és. Isso sim faz do mundo um lugar mais bonito. Quanto às entrelinhas do teu texto, quantas, quantas palabras sábias ali contidas. Como alguém já comentou aqui mesmo, teus textos tocam pontos comuns ( e não menos doloridos das pessoas). Ando querendo entender, para mim mesma, aprender a vomitar, quem sabe?, a coisa ruim "vem suja, incomodando, te tirando todas as forças. E você sofre, reluta, tenta até o final....até que se rende e a coloca pra fora." Quando irei conseguir? Sou uma senhorinha, moça do ponto do ônibus, me diz, por favor me diz???? Um beijo...
ótimo post, belo blog.
Muito bom. Parabens.
Maurizio
Mika
Só você mesmo pra transformar small talk em algo lindo. Odeio papo furado de estranhos! :c)
Beijos
Já ouvi tanta coisa em ponto de ônibus..são as melhores conversas corriqueiras.
Lembro até da história da mulher de sete metros! :P
Não some.
Beijo
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