
Sempre foi bom ir dormir ouvindo o barulho da chuva. Relaxa, dá aquela sensação de "está chovendo, mas estou seguro". Uma coisa simples, um pouco infantil, mas altamente recomendada nessa rotina estressante. Uma coisa que, em apenas alguns dias, passou de gostosa a aterrorizante.
Fazia três meses que usar guarda-chuva tornou-se uma atividade diária. Eu mesma, que sempre apelei para as sombrinhas de camelô, tive que providenciar uma dessas de alumínio, mais duráveis. Só chovia. E a gente reclamava no elevador. A gente praguejava no ponto de ônibus: "Meu Deus, quando é que vai parar?". E depois de tanto tempo de chuvas diárias, as reclamações descompromissadas cederam lugar à conformação. A um desânimo coletivo, desses que grudam nas pessoas feito bolor.
E era bolor. Recorrer à previsão do tempo tornou-se rotina. A cada nuvenzinha no Climatempo, maior a dose de desânimo. A coisa seguia, as locadoras lucravam, os taxistas sorriam. E a gente se rendia, só esperando que o inferno astral passasse. Sem perceber muito bem que o inferno logo aconteceria aqui.
Meu pai nunca gostou que eu reclamasse da chuva. Por ter vindo do Nordeste, ele sabe bem da importância de cada gota. Aí dá pra entender a cara que ele fazia quando alguém satirizava aquela situação. Ele sabia bem que com chuva não se brinca. Se ela não vem, o caos acontece. Se vem demais, acontece também. Hoje eu entendo bem a cara dele. Não pela importância da chuva, mas pelo excesso dela. Era óbvio que depois de tanta água, o caos aconteceria. Desde o provérbio da "água mole em pedra dura.." até as flores que morrem com excesso de água: não demorou pra que o chão desmanchasse.
E pra variar, quem sofre mais é quem pode menos. Quem morava lá em cima do morro, naquela casa desajeitada, finalmente ganhou a atenção das autoridades. Pra variar, não pela necessidade, mas pela tragédia. Foi naquele fim de semana difícil, quando São Pedro realmente demonstrou performance, que casas desabaram (com moradores dentro), morros deslizaram em rodovias (com carros passando) e muita água invadiu lugares sem ser convidada. No meio do vento e da chuvarada, tudo o que eu perdi foi uma sombrinha barata. Ao mesmo tempo, tudo o que várias famílias perdiam era.. tudo. Simplesmente tudo.
Em Floripa, proporcionalmente, as coisas não foram tão ruins. Não em relação às cidades vizinhas. Aqui, poucos bairros foram atingidos. Diferente de outros lugares, como Itajaí, onde minha sogra teve que sair de sua casa de bote. De bote! Esqueça o carro, o ônibus, as pernas. Esqueça o conforto, a sua cama quente onde você gosta de dormir ouvindo o barulho da chuva. Enquanto eu escrevo este texto no meu quarto e você lê em qualquer outro lugar seguro, tem gente incerta sobre onde vai dormir hoje à noite ou sobre onde vai morar agora. Tem gente sofrendo por ter perdido alguém de um modo tão burro. Gente destruída por ter sido obrigada a abandonar seu animalzinho de estimação (cachorros e gatos não puderam entrar nos botes).
Ou seja, tem gente sofrendo por sonhos interrompidos. Como SEMPRE existiu. E, como sempre, há os que se sensibilizam com isso. Os que levantam da sua cama quentinha pra ajudar a secar de lágrimas a chuvaradas. A mobilização de todos por aqui - e pelo Brasil - está bastante comovente. E é esse tipo de coisa que ainda me faz acreditar nas pessoas. Uma hora o verão vai vir, a chuva vai secar e, dentro do possível, tudo vai se reerguer.
As chuvas desse ano não vão ser esquecidas. Muito menos o poder que as pessoas têm quando se reúnem pra ajudar.

Pra quem quer e pode colaborar:
- Tanto em Floripa quanto no restante do estado, existem vários postos de coleta recebendo donativos como alimentos, roupas, colchões, etc. No entanto, por causa das más condições das estradas catarinenses e a falta de estrutura e logística, a Defesa Civil de Santa Catarina, está preferindo que as doações sejam feitas em dinheiro. Como diz o site da RBS SC, "A intenção é que roupas, alimentos, água e materiais sejam comprados nas próprias cidades atingidas com o dinheiro doado. Isso ajudaria também a injetar recursos nas economias locais."
- As doações em dinheiro podem ser encaminhadas para a conta bancária da Defesa Civil de SC. Não confie nas contas enviadas por e-mail. O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual de Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57
BANCO DO BRASIL
Agência: 3582-3
Conta Corrente: 80.000-7
ps1: A minha sogra, mãe do Fernando, já voltou pra casa. Está bem segura e perdeu pouca coisa.
ps2: A ilustração lá em cima é da Alice Prina.
ps3: E como disse o Fernando, "desculpe a franqueza, mas só sentir pena não vai ajudar".
8 comentários:
Me sensibilizei muito, Milena. Essa tragédia marcou de verdade.
Muito om seu blog!
Ninguém foi poupado: crianças, adultos, ricos, pobres, homens, mulheres... A morte os igualou a todos. O custo da reconstrução será gigantesco — mas, vá lá, isso ainda tem remédio. Mas há o que não tem cura, a exemplo do que se lê neste trecho:
“No domingo 23, o operário André Oliveira, de 29 anos, deixou a família na casa de um parente, no município de Gaspar, e foi ao mercado. A poucos passos do portão, ouviu um estrondo. Ao olhar para trás, viu a mulher na varanda e os filhos no quintal. "Saiam daí", gritou. Não deu tempo. O morro próximo veio abaixo soterrando, além da sua casa, uma dezena de outras. Oliveira ainda ouviu o choro da filha de 3 anos, Ester. Tentou tirá-la dos escombros, mas dois novos desabamentos se sucederam. Quando resgatou os corpos, viu que sua mulher morrera abraçada à menina.”
Esse e outros relatos nos esfriam o sangue. A impotência do pai e a mãe agarrada à filha envenenaram a minha madrugada e não vão fugir tão cedo da minha memória. Coragem, Santa Catarina! E fiquemos atentos para cobrar das várias esferas do estado brasileiro o devido atendimento àquela população valente, que aparece todos os dias na TV falando em recomeçar.
Milena, quando eu era criança, aprendi uma música que era assim: "para mim, a chuva no telhado, é cantiga de ninar. mas ao pobre meu irmão, para ele a chuva fria, vai entrando em seu barraco, e faz lama pelo chão. Como posso ter sono sossegado, se no dia que passou, os meus braços eu cruzei. Como posso ser feliz, se ao pobre meu irmão, eu fechei meu coração, meu amor eu recusei..." \e dizia mais ainda essa canção que me fazia refletir. Hoje estamos desolados e tristes. O estado de SC sofrei as dores de mais uma tragédia natural embora nós, que estamos seguros, não entendamos a dimensão do que é a natureza. por isso, sugiro que lancemos uma campanha para um Natal mais solidário e menos comercial e que rezemos muito para agradecer pelos que ficaram pa salvo quando há muitos que entrarão para a História desse novembro trágico anonimamente sem direito até mesmo a um enterro decente, uma vez que já está soterrado. Vidas ceifadas e tantos enfeites de Natal nos schopings é, no mínimo, destoante. Rezemos e agradeçamos por estarmos aqui, vivos! Um abraço, Mika e parabens pelo texto.
Um abraço carinhoso, agora com postagem pelo blog, hahahah... Connitua na tua missão de formar e informar os leitores que por aqui passam. O futuro te reserva lindas surpresas! Beeijos!
Não acredito que doar dinheiro seja realmente a melhor opção. Entendo a dificuldade logística, mas se não existe material a ser adquirido nas cidades mais afetadas como as pessoas poderão aquecer a economia local?
No mais, concordo com tudo que foi dito no post. Solidariedade é essencial nestas horas, e o Brasil está se mostrando bastante solidário.
Só acredito que poderiamos continuar sendo solidários sem precisar de tragédias tão grandes. Afinal, se nos movermos e nos comovermos da mesma forma no dia-a-dia, este país seria um país muito melhor.
Com certeza muita gente ainda não realizou o que vem a ser a situação em que as pessoas estão passando por ai. E infelizmente, a situação vai passar e muita gente nem vai tomar conhecimento. Seu blog é um pontinho de luz no sol que ajuda a iluminar essas pessoas.
Agora, posso estar pagando de babaca, mas pessoalmente, eu fico com um pé atrás quando a ajuda envolve dinheiro. No Brasil, com toda a fama (fundada) de desvio de verbas, fica complicado ter fé de que o investimento vai chegar realmente pra quem está precisando. Ainda mais quando envolve órgãos públicos.
Nesse exato momento, o Fábio Seixas (do Camiseteria) lançou uma forma dos blogueiros ajudarem com links adsense. http://blog.fabioseixas.com.br/archives/2008/12/campanha_adsense_para_ajudar_santa_catarina.html
Tomara que dê certo e, assim como o seu blog, seja mais um ponto de luz no sol.
Beijos
muito trsite tudo isso, tanta gente sofrendo :( , ajudar é o minimo q podemos fazer ja que temos nossos lares, comida e cama quentinha. tomara que tudo isso se resolva com ajuda de todos !
Ainda acho que o brasileiro deixa muito à desejar no quisito solidariedade. Existem tragédias diárias para as quais não damos a menor bola. Por ter nascido no Rio, falo isso. Lá morre gente mais que em Bagdá, de forma muito mais difícil de aceitar que na tragédia de SC, que por ter sido um acontecimento atípico e por nos identificarmos com as pessoas que sofreram, causou tamanha comoção.
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