Os independentes

segunda-feira, 15 de setembro de 2008 |


Diz a lenda que Adão cresceu sozinho. Ano após ano, lá estava ele, abandonado e nu, vivendo um marasmo neste mundaréu chamado Terra. Pois se o planeta já é realmente grande, imagine para um homem só! - na empreitada, Adão ganhou uma infinidade de maravilhas a serem descobertas. Mas como o tédio, desde os primórdios, assola todo ser humano, não demorou para nosso pobre elo perdido se sentir sozinho. Aperto no peito, dor no coração, estava em estréia essa tal de solidão!

Logo providenciaram a companhia: mulherão neanderthal pra ninguém botar defeito. Juntos, fizeram miséria com a terrinha, rolaram na areia, comeram maçãs... Pecaram pra diabo, mas comprovaram a teoria: o mundo não vai pra frente quando você está sozinho. E eis que o mundo foi pra frente, de um modo meio torto - mas foi. Milhões de anos se passaram, vieram revoluções, guerras, o biquíni, a tecnologia. Surgiu um mundo relativamente avançado, e agora estamos aí: querendo novamente brincar de Adão. Insistindo na auto-suficiência.

De todos os produtos hoje vendidos, o que mais sai é a independência. Vende que nem água. E apesar de não vir em caixas, está embutida em uma porção de idéias que te dizem que o mais prático é ficar sozinho. Ok, a solidão pode ser triste, mas para quê investir em relacionamentos com tendência comprovada ao fracasso? Para quê jogar o buquê quando logo,logo as fotos é que serão descartadas? Filhos? Você pode conseguir sozinho. Amigos? Haverá os circunstanciais. A vida virou um enorme sachê de amostra-grátis, e as doses me parecem cada vez mais fracas.

Tudo porque, em certo momento, a entrega do coração perdeu para a tele-entrega da pizza. E porque, enquanto isso, os limites abolidos com a internet permitiram muros enormes entre pessoas. Independente da tua teoria de criação do mundo, os criados necessariamente foram dois. Um par. Emissor e receptor. Sístole e diástole. Um mundo inteiro existindo num mutualismo inegável e nós aqui apostando na tecla esc.

E eu insisto nessa idéia porque ainda acredito na carne e no osso. Ainda tenho lágrimas salgadas e um abraço doce. Ainda reivindico o "pessoalmente", a humanidade e a ambigüidade da palavra conexão. Sabe, essas coisinhas fundamentais que a gente não conquista no efeito de um clique. Não me clique. E se "amar" virar verbo defectivo, conjugue pelo menos, na primeira pessoa. Pode até começar em "eu", mas tem grandes chances de terminar em "nós".

30 comentários:

Lu, anda! disse...

Nossa Senhora, que texto perfeito. Aliás, aqui é de canto à canto. Só não dá pra isolar...

"A vida virou um enorme sachê de amostra-grátis, e as doses me parecem cada vez mais fracas".

As pessoas andam tão descartáveis né?

Kelly Veiga disse...

Uaauu!

"mas para quê investir em relacionamentos com tendência comprovada ao fracasso?"

Falou tudo!

Beijokas

Fernando Cabral disse...

Amor é um investimento de risco, e não tem regras. As vezes rende muito mais do que você investiu. Outras vezes, o contrário.

Mas uma coisa é certa e aprendi isso da pior forma: não dá pra economizar dedicação. Porque se fizer isso, você termina com quase nada.

Marcus Levin disse...

Seu texto sobre a solidão veio bem a calhar logo após de eu assistir ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA.
Da normalidade para cegueira não muda a nossa indiferênça. Podemos viver perto e passar por pessoas QUE VEMOS todos os dia como se estivéssemos cegos.
Estamos cegos pelo nosso ego, e em mantê-lo insaciável. Acabamos por não nos conhecendo e nem aos outros, em que tínhamos aquela certeza...
Porém, consigo te ver pelas sua palavras. Que continuem autêntica(as).

Vanessa Pinho disse...

"A vida virou um enorme sachê de amostra-grátis".

:P

Victinhu disse...

Uau! Mais um texto pra minha lista de favoritos.

Adorei a parte final:

"Pode até começar em "eu", mas tem grandes chances de terminar em "nós"."

E eu sou totalmente adepto a questão do "carne e osso". Nada como sentir o calor da pessoa de verdade, a respiração, o cheiro...

Adorei o post.

Era esse que estava prontinho no forno?

Milena Gouvêa disse...

@Victinhu era sim. E já tenho outro aqui em standby. Hahha chega de ser blogueira relapsa!

Kati disse...

Alguém viu meu queixo por aí?

Só digo uma coisa: Martha Medeiros versão 2.0 está na área.

Amanda... disse...

Lindo esse texto, sou apaixonada pelos seus textos.

Ah, era eu que estava com a Jú aquele dia no floripa shopping. Prazer. hahaha

Bjockas!

Isa disse...

Mas antes de conjugar o nós é preciso necessariamente passar pelo EU. Enquanto o eu não é conjugado, o nós nunca poderá ser. As pessoas, contudo, esquecem disso e buscam o nós antes do eu. Como se a felicidade estivesse nos outros e não em nós mesmos.

Lindo o texto Milena!!!

Isa disse...

Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes,
é necessário ser um.

Fernando Pessoa

Anônimo disse...

Miiiii
pq nao tais mais namorando?

Anônimo disse...

Verdade. O mundo não vai pra frente quando estamos sozinhos... Verdade? Já não sei dizer. Na solidão se fazem grandes gênios. Na solidão se revelam grandes intelectos.Amor é bom, na medida certa. Demais deixa de ser amor, passa a ser idiotice, de menos deixa de interessar, passa a ser patético. Medida pras coisas. Acho que é isso que falta nos "independentes" e em todos nós.

rodrigo_mallon disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Don disse...

realmente concordo que o "eu" é muito solitário, mas quero ter a certeza que "nós" um dia vai dar certo!

cari baci

Lu, anda! disse...

eu também costumo me presentear, como também adoooro dar presentes. Mas tudo com limites como você falou. ;)

Anônimo disse...

Nossa, estou surpresa com o seus textos Milena! Todos apresentam uma leveza, uma condução ao racional simples o que os torna impressionantes, dignos de ganhar muitos fãs. Parabéns! Voltarei sempre...
;*

Anônimo disse...

NUH! Ah é que apagaram meu comentário aqui.

Alô? Milena? Preciso dizer quem eu sou? haha

:~

Anônimo disse...

NUH! Ah é que apagaram meu comentário aqui.

Alô? Milena? Preciso dizer quem eu sou? haha

:~

Brown disse...

Eita lasquera!
Adorei o post, acho até que vou abrir um espaço pra postar isso aí...alias acho não, tenho certeza...falou tudo que sempre tento falar pras pessoas...mas com uma habilidade sagaz...^^
parabéns pelo blog...e não ligue se em algum momento eu roubar suas idéias! vc será citada!

ps: to te linkando já de prima!
^^

bjks =o*

Luz disse...

É tão triste saber essas coisas, saber que as pessoas cada vez mais ficam piores. Mas eu também acredito no amor, ainda. Beijos! Adoro seu blog!

Camilla disse...

"E se "amar" virar verbo defectivo, conjugue pelo menos, na primeira pessoa. Pode até começar em "eu", mas tem grandes chances de terminar em "nós".

Que final maravilhoso.

Beijos

Conde Vlad Drakuléa disse...

Gostei muito do texto, muito bem escrito, e além de tudo, muito necessário e conveniente!!!
Estás perfeita e genial como sempre!
Beijos do conde!
Nhac,nhac,nhac :
Voei!

Dayane Abreu disse...

Quando eu tiver minha própria revista, vou contratar você pra escrever numa página sua. ^^

Lidusurf disse...

Mi, eu fico impressionada com a sensibilidade que você tem para escrever!
(:
Eu também faço parte do grupo que reivindica o "pessoalmente"! As relações, depois da internet, tornaram-se muito mais supérfluas. É triste =S
Beijo grande, linda!

Evelise disse...

mais do que certa você Mi :)

e escrevendo lindo, só pra variar um pouco não?
parece que todas as suas frases confluem para o final, sem esforço nenhum, tão fluente e envolvente.
parabéns again :)

beijosbeijos!

Éder Prado disse...

Esse texto combina com...

"Acha lindo ser independente, mas é carente."

...pois infelizmente ser independente, as vezes, nos deixa "longe" de pessoas que amamos e por mais que falamos ao telefone, teclamos ao teclado [rs], nada disso substituirá o abraço onde sentimos dois corações juntos batendo na mesma força!

Lindo texto!

Anônimo disse...

Que idéia.

Milena Gouvêa disse...

Sr. Anônimo: favor ser mais explícito em suas opiniões.

Obg.

Teté disse...

Ei Lindona. Tudo bem? Achei seu blog através do site da capricho. Gostei bastante. Parabéns! Mto mais sucessos e pensamentos como estes pra vc. Vou te linkar ok?? Espero q não se importe. Bjo grande! E se quiser dps visita meu blog ;)