Ou aquilo.



O menino foi dormir e acordou decidido a virar padre. Bateu um santo, apareceu um anjo, não dá pra dizer bem o que aconteceu. Mas deu alguns anos e lá estava o moleque, já um pouco mais moço, vestindo uma batina e batizando um rebento. Podia ter virado bombeiro, marceneiro, bancário como o pai queria. Que nada, resolveu seguir a bíblia. Mas vai pedir pra ele explicar porque escolheu assim, vai perguntar. O pobre coração imaculado não vai saber dizer.

Pois no meu caso é a mesma coisa. Não que eu esteja decidida a virar beata, Deus sabe que minha cota não está lá aquela maravilha. Mas tomei uma decisão que veio assim, de dentro, pulsando, mordendo, dançando um frevo e mandando em tudo: mudei. A principal diferença da trajetória do rabino é que em vez de anjo, eu vi a dona Cecília.


Meireles, prazer. Foi com seis anos que a aparição aconteceu. Em forma de livro - graças a Deus - porque eu nunca fui muito simpatizante do Gaspar. Com essa idade eu já escrevia horrores, talvez até literalmente, visto que os textos eram bem primitivos. Mas já apareciam na prova da primeira série, no muralzinho da escola e (cruzes) até no santinho de falecimento da avó.

Foi nessa época aí que o tal livro “Ou isto ou aquilo” caiu na minha mão. A partir daí nem macumba me faria mudar de idéia. Eu gostava de ler, gostava de poesia, mas aquilo meus amigos, aquilo era o extremo da alegria. Pois virou minha bíblia naquela época, ou até mais: virou uma porta que eu mantenho escancarada até hoje.


De fã, virei herdeira. Herdei o gosto pela poesia, pela leitura, e não sei se foi praga do nome do livro, mas cresci absurdamente indecisa. E com um uma puta vontade de escrever. Juntando tudo daria numa coisa meio mais pra lá do que pra cá. Deu numa publicitária.

E publicitária que gosta de escrever vira o quê? Redatora. Do tipo frustrada. Que se propõe a matar a sede com um conta-gotas. Faz lá seu portfólio bonitinho e enche de sacadinhas engraçadinhas, só pra se sentir extremamente sem graça no final.

Deus que me perdoe, mas nasci inconformada demais, determinada demais, capaz de fazer o pai bater na mesa e a mãe botar a mão no peito. Ou de simplesmente ter coragem para mudar de vida (ou de profissão).

E foi assim. Joguei tudo pro alto antes que tudo me jogasse pra baixo. Fiz a curva brusca, atravessei a rua sem olhar, mudei, me atirei. Assim, logo depois de uma grande formatura. Pra virar escritora, roteirista, ou só para satisfazer uma vontade minha, da forma mais mimada, inconseqüente e estranhamente sensata.
Os tempos do “Ou isto ou aquilo”, terminaram, minha gente. Esse tempo agora é meu.




Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo


11 comentários:

Fernando Cabral disse...

Amor

Você não mudou de lado, nem de time, nem de caminho. Não trocou de destino e nem jogou fora um futuro profissional.

O que você fez foi ficar do lado do seu sonho, do que você acredita e quer verdadeiramente para o teu futuro, caminho, destino, ou seja lá como preferir chamar a sua linda, talentosa e especial vida.

E só quem tem muita coragem, pode encarar essa decisão, e agir. Porque a maioria vai se arrastando em bando por um caminho que não queria trilhar. E chia muito quando vê alguém fazendo a curva, pegando um atalho, saindo da fila.

Não ligue para as opiniões alheias, isso inclui a minha. A única pessoa que precisa estar satisfeita com as suas decisões, é você mesma. Só você!

Parabéns pela maturidade, meu amor.
Estou contigo, agora e em todas as noites de autógrafos!
Beijos!

Victor Matheus disse...

Quer coisa melhor e mais bonita do que seguir o próprio sonho? Pra se ter um sucesso real e duradouro, só trilhando o caminho com muita paixão. E isso vc deixa transparecer.

Um abraço...

Nagela disse...

Cecília Meireles - Amo, Amo, Amo, Amo!!!!!!
:)
Adorei teu blog!
Beijos!

Evelise disse...

a vida é mais leve quando a gente faz o que gosta ;)

parabéns pelas escolhas e por mais um texto ótimo, beijo!

Milena disse...

Faço minhas as palavras do "cunhado" ali. É preciso ter coragem pra ir atrás do que você sempre quis, ainda que seja contra a corrente.

Eu tô muuuuito orgulhosa de você. E nem preciso dizer que já te considero um sucesso absurdo, né? Não tem como dar errado, minha linda... Talento e paixão estão no mesmo barco.

Amo você.

=***

carol rivello disse...

naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao acreditoooooooooooooo!! eh um dos meus livros preferidos de todos os tempos (junto com menino maluquinho, hehe) amo amo amo amo! tudo! nao sei se tua edicao eh a mesma, a minha eh aquela toda ilustrada com aquarelas, tudo de bom. herdei de um tio meu, o livro tem uns 30 anos! =) meu xodó.

Colar de Carolina


Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina. =)

beijao e poste sempre!

e fuja correndo da publicidade, ela nao te merece - igual o menininho do tang.

Marcella disse...

Nova no blog, mas antiga na leitura do seu...
Adicionei seu link no meu, espero que não se importe...

Mary West disse...

Quando finalmente decidimos por algo que vá influenciar em nossa vida como um todo, bate um sentimento de missão comprida de que agora é rolar ladeira abaixo. Tomara q seja assim mesmo. ;)

Daaia disse...

Se todos os humanos tivessem raça como você, o mundo estaria menos contraditório.

Se você começar a escrever livros, irei comprar todos!
Boa sorte por essa mudança ;D

▀█ Camila Siqueira ♣ disse...

A vida é feita de escolhas e você fez as suas..Boa sorte!

Anônimo disse...

Thanks for your sharing, it' s very useful

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