Natal!



Depois de uma noite com muito abraços, comida e família cantando, o dia 25 torna-se mesmo aquele dia da ressaca. O que é um bom sinal, quer dizer que a noitada foi boa. Apesar de o Natal aqui ser uma comemoração totalmente familiar, eu ainda me surpreendo com o quanto tios, tias e primos podem fazer uma noite feliz.

Mas é claro que antes da festa em si ocorreram vários perrengues. Começando na vinda pra cá.

Natal é tempo de boa vontade

Haja boa vontade pra, em todo santo ano, fazer uma viagem de 12 horas num carro sem ar-condicionado no pré-verão. Mas, repleta do espírito natalino, lá veio a família Gouvêa à bordo de seu carrinho pela estrada.
Você gosta de Florianópolis? Tem o sonho de passar a Lua-de-mel em suas praias paradisíacas? Está programando passar o ano novo de 2010 na Beira-mar Florianopolitana?
Faça como eu! Largue todo esse sonho e siga o contra-fluxo para São Paulo!

Depois de um dia inteiro no carro, a noção tempo-espaço fica meio distorcida, realmente. Mas tudo voltou à tona quando, num posto na beira da estrada, o carro resolveu parar de funcionar. Assim, simplesmente parou. Trinta e cinco graus lá fora e o carro mudo, parado.
E do que a gente precisa nessa hora? De um milagre Natalino!

Natal é tempo de milagres Natalinos

Pois se fosse em qualquer outra comemoração, estaríamos naquele posto até agora. Sorte é que Papai Noel existe e saiu do carro ao lado para nos ajudar. Largou sua mulher e filhos pra ver o que acontecia no carro vizinho e dar aquela mão. Mexe aqui, mexe ali, e o bendito pegou. Fico me perguntando se, em outra época, essa boa vontade existiria.
Fato é que por causa desse cara benevolente, seguimos viagem e chegamos até aqui.

Natal é tempo de recomeçar

Assim, a cada ano, recomeçamos as arrumações. Foi uma correria, como sempre. Pra você ter idéia, arrumei a Árvore no dia 24 à tarde! Enquanto eu estava lá, enrolada com o pisca-pisca, um grito de desespero invade a casa:

- Geeeente, cadê o menino Jesus?

Pergunta um tanto quanto prolixa. Ora, segundo o calendário Cristão, Jesus ainda nem havia nascido. Por outro lado, é de conhecimento de todos sobre sua onipresença. Acontece que o pessoal estava arrumando o presépio (em cima da hora, como sempre) e a imagem dele (justo de quem!) havia sumido. Pelas barbas do Noel.

O que vocês não sabem é que isso acontece todo ano. Jesus sempre brinca de esconde-esconde com a gente na véspera, e lá pelas tantas alguém o encontra. Sempre dá tempo e a bendita alma grita, para o alívio de todos:

- Encontrei Jesus!

Ao final da festa, guardamos a imagem em algum lugar bem específico, pra ter certeza de reencontrar no ano que vem. Pena que o lugar é tão específico, que a história se repete.

"Então é Natal"

Simone estava certa, é Natal. E apesar de ouvir o CD dela durante toda a noite, juro que aquelas palavras fizeram o maior sentido.
Eu sei que a imagem natalina está um tanto quanto distorcida. E eu não iria escrever um texto sobre o Natal consumista porque isso todo mundo escreve. Mas olha, por mais que a coisa esteja realmente preta, não há um comercial de TV, uma caixa de presente ou qualquer coisa consumista que supere o carinho que reinou absoluto por aqui ontem à noite.
Família, sabe? Todo mundo se abraçando, cantando, rindo, comendo! Tenta botar isso aí numa caixinha! Tenta decorar de vermelho, pintar de dourado, vender em 10 prestações. Não dá. Carinho não se vende, amor não se vende.
O que é um alívio. Mas também é uma prova. Prova de que alguma coisa ainda resiste às vendas a prazo. Alguma coisinha ainda mora aí dentro, ainda anda por aí fazendo todo mundo acreditar, se abraçar e sentir o coração batendo mais forte.

Um Natal maravilhoso pra quem sabe o que é essa tal coisinha. E que assim como eu, ainda vive por ela.


Feliz blog novo!

E de que vale um ano novo sem novidades? Já estão sendo muitas, então vou falando aos pouquinhos sobre elas por aqui.


Sobre um novo blog

Mudar para o blogger.com era uma das resoluções para 2007. Como dá pra ver, deu tempo. Eu precisava de mais espaço, um pouco mais de modernidade e mais organização. Tá aqui, finalmente, meu novo blog! Com o mesmo estilo pastel e melodramático de sempre.
Perdoem a enooorme criatividade no nome. Sintam-se livres para sugerir outras opções. Se vai fazer efeito, daí é outra história.

Ah, os textos antigos estão todos postados em outubro e dezembro de 2007. Recordar é viver.

Sobre como é muito jóia ter amigos sinceros

Os meus são imbatíveis. Por exemplo, ao ver o novo blog, Luana, minha colega de trabalho, fez aquela cara duvidosa de mãe vendo o desenho que o filho fez . Não entendeu, mas gostou. E pra demonstrar toda a sua admiração, só falou “Mas você gostou dessa foto sua aí, Mi? Você está com um carão nela”.
Então é isso, estou com um carão na foto à direita.

Já o Ziggy, muito entendedor de blog (visto que o seu Sim,Viral segue rumo ao estrelato) simplesmente olhou e preferiu não comentar. Só falou alguma coisa do tipo “sou muito crítico, é melhor não falar nada”.
Manteve o mistério e me poupou de suas ásperas opiniões. Quanto carinho.

Pois não fui eu que fiz o template. Eu só modifiquei umas coisas, e como não tenho a manha blogueira, ficou assim e assim ficará. O que vale é o conteúdo, né não?


Sobre como eu me tornei uma couve-flor desempregada




Depois de mais de um doce ano de labuta aqui na agência, resolvi pedir demissão. A decisão, apesar de gerar aquele susto no pai e na mãe, foi bem pensada e eu tive lá meus bons motivos. Foi necessária.
Então tá, escolha tomada, carta de alforria na mão e a saudade antecipada reinando no peito. Saudade do pessoal legal que conheci, dos jobs (nem todos) que parí com carinho, enfim, de tudo o que passou. Trabalhar em agência de propaganda é uma coisa louca mesmo, mas as pessoas ao redor ajudam a melhorar (ou a deixar mais louco ainda, dependendo do caso). O meu foi meio termo.

Assim, estou na minha última semana de trabalho. E, num dia desses, estava na criação ao lado da grande impressora mãe-de-todos esperando a minha imrpressão sair. Antes que a bendita viesse, notei um e-mail impresso, com todos os endereços eletrônicos dos profissionais que aqui frequentam, seguidos de seus sobrenomes.

E qual não foi a minha surpresa ao perceber um certo Milena “Couveia”, ao lado do meu e-mail? Percebam o problema:durante mais de um ano, todos os meus colegas recebiam meus e-mails assinados por nada mais, nada menos que uma espécie de Couve! Para os que não entendem a minha dor, meu nome é Milena Gouvêa, sem “i” e sem parentesco com vegetais.

O mal entendido será superado com um pequeno período de férias. Vou lá pra São Paulo, abraço os parentes, estico as pernas, durmo até às 2 e volto para alugar um megafone e sair pedindo emprego. Precisa de uma redatora dedicada? Seus problemas acabaram.


Bom, agora o blog recomeça. Gostaria das sinceras opiniões de vocês. Se devo mudar o nome, se o template tá brega, se eu estou mesmo com carão na foto ao lado, enfim, abram o coração, afinal, é Natal.

Parênteses

Foi com 16 anos que Maria Geralda teve seu primeiro filho. Depois, pegou gosto pela coisa e teve mais uns… vinte e dois! Em 1940 era assim, mulheres viravam verdadeiras fábricas de rebentos. De aventalzinho e bobes no cabelo, viviam para garantir a felicidade do marido e para cuidar bem dos herdeiros. Se bem que, convenhamos, de 22 herdeiros nem sendo do século 21 pra dar conta. E foi assim que, em meio às interpéries da vida, apenas 13 sobreviveram.

Pois não era nada fácil viver naqueles tempos. Muito menos sendo mulher. Mas a Geralda sabia bem das coisas e convocava os filhos mais velhos como babás. Cinco da tarde era hora do banho dos meninos; seis da tarde, banho das meninas. Sete da noite, hora de secar o dilúvio e tentar descansar. E com pequenas organizações assim, a vida seguia.

Já crescidos, cada um dos 13 sobreviventes tomou seu rumo. A maioria dos meninos foi pro seminário tentar virar padre, mas nenhum vingou. Algumas das meninas foram pro convento tentar virar freiras, mas nenhuma vingou (visto que tentaram instituir a calça comprida e a depilação para mulheres, sugestão totalmente inadequada). Uma pena, pois só com esta família a Igreja Católica ganharia colaboradores capaz de fazer uma paróquia inteira funcionar. Mas, como diz Geralda, por algum motivo, Deus não quis.

E eu sei qual o motivo. Aquele time de rebeldes da calça comprida só ia querer saber de fazer bagunça. Mas antes da bagunça (ou durante), eles fizeram filhos. E aí você faça suas contas para constatar, assim por cima, a bolada de primos que eu ganhei. Sim, porque um dos célebres filhotes era Dona Ana, minha mãe. E só nessa jogada aí se fez uma família enorme, digna de comercial de peru de Natal.

Sinceramente, não protagonizamos nenhum comercial ainda. Mas cada encontro nosso dava pra vender o bendito peru, cerveja, CD de samba e sucessos da jovem guarda, receitas, previsão das novelas, quilos de margarina, molho de tomate e qualquer outra coisa em que uma família grande e animada apareça curtindo muito o momento.

Mas nós não vendemos, porque a lei aqui é a da doação. Assim, em cada final de ano todo mundo se encontra pra doar sorrisos. É claro que, em tanto tempo, as coisas tendem a mudar. Hoje em dia, a primaiada está namorando, alguns vão trabalhar na véspera, aqueles motivos de sempre. Mas, mesmo com algumas ausências, a gente sempre esteve unido. Principalmente quando era melhor doar um ombro do que um sorriso. Isso foi quando a vó Geralda se foi.

Por aí tem gente que não gosta dos familiares distantes, gente que brigou, gente que não se vê há tempos. Tem gente que só manda um alô, gente que chora de saudade, gente que se abraça e dá as mãos ao redor do presépio. Eu realmente não sei definir bem a função de um parente.

Talvez pra muitos ela seja só essa aí, a de existir com um pouquinho de você - nem que seja aquele gene recessivo - perdido em algum outro lugar. Mas na minha vida, em que a redação é tão presente quanto eles, parentes sempre tiveram a verdadeira função dos parênteses: não importa aonde eu esteja, eu me sinto protegida, no meio de um grande abraço.
(Ou de trinta e poucos).

Tudo menos eu

Meu problema é que sempre pequei pelo excesso. Na carência, na doação, na atenção, na busca pelo inalcançável feedback: sempre um pouco demais. Sei lá qual a regra que essas pessoas usam pra saber onde é que fica o tal limite. O que sei é o seguinte: eu sempre o extrapolo. Mais do que uma rebelde sem causa, eu sou uma rebelde com motivações, e muito justas. Afinal, ser feliz é o quê, além de pretexto pra livro de auto-ajuda? E pra ser rebelde nem é preciso cortar o cabelo, tatuar uma caveira nas costas e decepcionar a própria mãe. Basta que se atinja um certo nível de inconformidade, e se lute contra ele. Nem que seja internamente, nessa sala clara em que, sozinha, minha voz ecoa mais alto. E tudo o que ela diz, na maior altura e indignação do mundo, é tudo o que eu ouvi a vida toda: “ um pouco menos, Milena”.

“Ame um pouco menos,fale um pouco menos, reclame menos pela manhã. Espere um pouco menos, complique menos, somatize menos. Pelo amor de Deus, Milena, menos tentativas. Menos linhas neste texto, menos ansiedade, menos expectativa. Menos palavras de amor, porque elas podem ter menos respostas ainda. Menos voltas ao passado, porque elas podem te fazer sentir menor do que você é. Menos entrega, porque ela pode não ter devolução.”

Menos tanto, que sobra menos de mim. E como alguém há de querer que um coração que vive demais se realize de menos? E aí eu sigo com meu oitavo pecado capital, extrapolando e incluindo somas nesse mundo que só faz subtrair. Tira um pouco de você, tira o dobro de mim. Vai ver é por isso que o meu excesso é tanto: na falta do seu, sempre vai sobrar do meu. Mas quem sabe com tantas sobras, eu me faça inteira algum dia.

Finalmente uma utilidade para a matemática, que nunca deixou de ser penitência.



- texto de novembro / 2007

Sobre pedras e passarinhos




Se você disser para um passarinho que ele nasceu para voar, provavelmente ele não ficará supreso. Com a delicadeza e polidez que só os passarinhos possuem, responderá que há anos já sabia disso, e que este fato – o de saber a quê veio ao mundo – o fazia bem.
Se disseres para uma pedra que sua função é a de permanecer parada e impermeável pela eternidade, conformada com o fato de que talvez – e apenas talvez – alguma chuva ou pé humano a troque de lugar, a reação será parecida. Provavelmente ela será um pouco dura, mas te dirá que já sabia disso. E que ela, assim como inúmeras outras criaturas, têm sua visível e eloquente missão. Que se sentem bem com tamanha obviedade, porque é mais seguro e sensato viver em um mundo onde as coisas fazem sentido.
Mas por que eu, tão representante da espécie, tão humana para os humanos quanto um passarinho é para os passarinhos, ainda não me conformei com a minha função? Porque a minha função é me render. E a rendição é uma piada. Suja e mal contada.
Faça o favor, “se render” não entra sequer em lista de resoluções de ano novo. Não cabe em livros de auto-ajuda, não exerce o direito da lógica. Só cai bem em contratos ingênuos de sociedade, em que um sempre dá no pé e o outro sempre dá no prejuízo.
Mas se você vier numa tarde dessas dizer que fui feita para me render, eu não vou ficar surpresa. Assim como para pedras, passarinhos, flores e nuvens, ouvir minha função depois de tantos anos soará um pouco óbvio. Mas se render é coisa para vítima de assalto. É propósito de gente sem propósito. Coisa de gente que ama sem medida, e amar sem medida é tomar xarope de cereja aos litros: bom, mas não faz bem. Rendição é assunto para fracos, para sonhadores, para os deficientes do bom e velho orgulho. É coisa de gente que ficou com um coração tão vazio, mas tão vazio, que cabe uma pessoa inteirinha ali.
E apesar dos pesares, esta é a minha função. O que me conforta por me dar um propósito, mas me judia por nunca fazer sentido. É o trabalho que eu mais sei fazer no mundo, mas que, inacreditavelmente, nunca consegui ensinar pra ninguém.
Vai ver eles eram pedras. Ou, sei lá, passarinhos.


- Texto de outubro / 2007

A última palavra

Semana passada estávamos eu e a Luana aqui na agência trabalhando quando, por volta das 4 da tarde, um enorme barulho louco de avião entra pela janela. Com esse monte de problemas aéreos pipocando pelo país e visto o drama pré-instalado em nossas mentes femininas, a primeira reação foi a de pânico. Por um minuto, pensamos que o tal avião estava caindo aqui por perto, e teve toda aquela correria cadeira-janela, só pra constatar que eram só as estripulias da Cia da Fumaça ou coisa do gênero.
Mas até aí tudo bem, são perrengues corriqueiros da vida urbana. Só que, ao voltar para a minha cadeira, esses meus pensamentos ilusórios me fizeram imaginar a tragédia que poderia ter acontecido. Sim, o avião poderia estar realmente caindo e poderia cair justo aqui. E eu não sou neurótica, juro. Mas a grande sacanagem não seria isso. A grande sacanagem seria morrer e ter como as últimas palavras, aquelas que eu levaria pra vida eterna, a sensacional frase: “mas eram mesmo 22 ovelhas?” – E bum, tudo termina.

Obviamente, eu não lembro qual era o meu assunto das 22 ovelhas. E poderia ser pior, vai que eu terminasse a vida com um sonoro palavrão. Ok, eu sei que a probabilidade de alguém ouvir meu último clamor seria bastante remota, principalmente se fosse em meio a tal tragédia, mas não custa atribuir certa importância ao fato. Vai que alguém ouve e resolve colocar ali, no túmulo, pra todo mundo ver? Vai que os jornais, atônitos, perguntassem aos sobreviventes “e quais foram as últimas palavras da garota?”. No mínimo me achariam um tanto quanto prolixa, ou eu incitaria uma curiosidade arrebatadora em meus pais, que provavelmente rodeariam meus pertences com 22 ovelhinhas de pelúcia, a fim de agradar o espírito.

Confesso, também, que a cautela exagerada com nossas últimas palavras seria bastante cômica. Imagine, em meio a qualquer situação perigosa, de morte iminente, todas as pessoas declamando poesias, frases de efeito e letras de músicas marcantes, pra fechar o percurso com chave de ouro. Certamente, um assaltante se irritaria bastante com uma vítima que repete incessantemente as palavras de Paulo Coelho. Por outro lado, morrer repetindo sua música favorita seria morrer feliz.

Mas o problema é que a gente nunca sabe quando a danada virá, e segue falando cada vez mais besteira. Não é sempre que a dita cuja chega anunciada com barulho de turbinas, e pouquíssimas pessoas realmente têm o privilégio de arranjar tempo para repetir o célebre “adeus mundo, adeus céu, adeus flores, ad.. “(foi).
Vamos então contar com a sorte. Se bem que sorte é o que menos existe num momento como esse. O incontestável é que todo mundo tem a última palavra na sua própria vida. Dita, cantada, proclamada, sentida, expressada por meio de gestos , desenhos ou doutrinas do Paulo Coelho. O seu trajeto e o que fica é você quem diz.



- Texto de outubro / 2007

O meu exemplo

Comecei minha monografia dizendo que por sua causa eu sei que anjos da guarda realmente existem.
Os motivos dessa frase não caberiam num texto, muito menos na imagem clichê de anjos com auréola e batas brancas, que saem voando por aí com nossas razões para acreditar neles. Os meus motivos são concretos, estão aqui em baixo comigo, e não voam.
E eu tenho muita sorte por eles não voarem. E muita sorte por conhecer alguém que, por unanimidade, é tão fora do normal.
Afinal, não é normal fazer o bem de graça. Não é normal a doação e a dedicação quando tudo o que você sabe que ganhará em troca são olheiras cansadas no dia seguinte. É absurdo ajudar quem você mal conhece.
Mas a sua anormalidade existe, e é por causa dela, que eu insisto tanto em ser anormal também.
E aí você entra na livraria e vê milhões de livros céticos, com doutrinhas polêmicas que vão deixar uma pessoa rica e milhões de pessoas descrentes. Sai na rua e vê pessoas em situações mais baixas que o próprio chão. Você abre o jornal e vê tudo indo pro lado contrário, tudo doendo, tudo vazio. Tudo sem uma mínima razão pra te fazer acreditar.
Mas você acredita. E isso é perfeitamente anormal.

A semana passada foi muito difícil. Eu, que sempre sempre fui rodeada de carinho e proteção, me vi tendo que dar colo para os meus próprios pais.
E eu te digo, pais podem pesar muito no colo de um filho. Tanto porquê, a força de um filho pode ser pouca e nunca será suficiente para convencer pessoas com tanta experiência de que o monstro no armário não existe.
Mas você me ajudou a segurá-los. Você uniu minhas mãos e, num quarto tão escuro, acendeu aquela luzinha. A mesma que me fazia dormir mais tranquila, a mesma que fez eles se tranquilizarem. E isso também é anormal.
Tão anormal quanto aquela vez em que, no meio da noite, você ligou música no quarto e me acordou para dançar balé. Ou quando fugiu comigo de São Paulo para Santos e me fez ligar de lá pros meus pais dizendo que eu estava na beira do mar. Anormal do jeito engraçado que você arranjava para acenar (com os pés) e me fazer parar de chorar porque ia embora do seu ladinho. E tão anormal quanto as vezes em que você me fazia cantar ópera bem alto no metrô, só porquê lá fazia eco.

Eu tenho certeza, não é normal. Ninguém vive em alguém com tanta presença. Se naquela época eu era uma criança descobrindo o mundo, hoje que eu descobri o mundo, sei que a criança ali também era você.

Vim para o trabalho e sentei na minha mesa de redatora, com o meu teclado de redatora, lembrando que só quero ser redatora porque quando eu tinha 7 anos, escrevi uma historinha que te fez acreditar que eu era boa naquilo. E o seu enorme entusiasmo me fez querer acreditar também.
E percebe? Você continuou me fazendo querer. Querer fazer melhor, ser melhor, ir além, emudecer preconceitos, curtir detalhes, colorir o dia, tornar possível, ser totalmente anormal. Doida mesmo, louca varrida. Completamente contra essa porcaria de valores que te puxam a cada dia cinza e que, se não te fazem sentir ingênua, te fazem sentir culpada.
E foi assim, me dando bons motivos pra existir, que você me provou que anjos da guarda realmente existem. E sabendo que existem, pude me cercar de pessoas tão anormais como você. Anormais na maneira de amar, de ser e de me surpreender com um amor anormal pro mundo, mas perfeitamente normal pra mim.

Obrigada por tudo. Te amo demais.
Da sua sobrinha, afilhada, amiga e admiradora.

Feliz adversário



Legal era quando tinha a festinha do sorvete, da Turma da Mônica, da Moranguinho. Quando havia uma mesa enorme, com um bolo enorme, e rodeada de balas e crianças.
No centro, imponente e vestindo pouco mais que um vestido de babados e chapéuzinho pontudo, está a razão e o porquê de tanta algazarra e palminhas ritmadas: você, minha criança, só você. E o destaque era seu, o show de mágica era seu, e no final do dia aquela cama repleta de presentes pra você nadar era só sua.

Pois bem, era.

Agora, contemple a situação presente. Retire cuidadosamente da cena os balões coloridos, a vela piscando em formato de número, o granulado espalhado na forminha. Exclua as luzes, o sucesso da Xuxa e aquela atmosfera mágica que rodeava a data: meus parabéns nossa pequena colaboradora, o escritório te deseja sucesso!

Um e-mail aos funcionários anuncia a ocasião. Colegas oferecem apertos de mão enquanto o celular apita com mensagens de amigos. O Msn pisca. Já decidiu se vai ser pizzaria ou barzinho? Na hora do almoço, pelo menos, escolha um lugarzinho especial. Ok, no shopping, que é o que oferece opções mais rápidas. Sete da noite você já estará em casa, na correria pra que o dia, o seu dia, não acabe tão cedo. E, enquanto você se diverte ao redor de pessoas queridas, ele lentamente irá embora, como todos os outros, mas levando alguma coisa que é sua.

Ah sim, a idade. De 22 pra 23 - tremendo progresso. Na verdade, houve e muito, mas esse negócio de balanço de aniversário já tá pra lá de brega. Se bem que seria até útil reafirmar virtudes pra você mesma, o motivo pelo qual algo tem que ser comemorado. Comemorar a existência? Sejamos francos, já foram mais de duas décadas disso. Comemorar a maturidade? Deus sabe que crescer intelectualmente me deixa dúvidas sobre suas reais vantagens.

Um mês era o tempo necessário pra que sua mãe dedicada planejasse a festinha, contratasse filmagens e preparasse uma festa capaz de escancarar pra você que todos estão felizes, pulando e rodeados de docinhos por você continuar seguindo.

Agora, meu bem, contrate você a trupe animadora. Trate de programar a festa, motivar pessoas ocupadas e preparar-se sozinha para receber com entusiasmo a abençoada data. Procure não obrigar-se a ter um dia bonito, mantenha o bom humor mesmo se chover um dilúvio. Divida a pizza e responda educadamente as mensagens no Orkut. O dia será seu e é de sua total responsabilidade fazê-lo ser feliz. Fada madrinha, colega, era só enfeite de parede.

Dois de outubro chega daqui a praticamente um mês. O tempo continua colocando anos nas minhas costas e eu continuo achando um peso. Fazer feliz um dia meu? Oras, isso eu faço todo dia. Mas o show de mágica, ah, realmente, esse é só no aniversário.

Pra falar de amor

Eu te chamei aqui porque queria te falar sobre grandeza. Mesmo mal te conhecendo, sofria de uma urgência de falar sobre o quanto eu aprendi nesses anos, o tanto que eu carreguei de bagagem, como alguém que volta de uma viagem cansada, mas ainda tem força pra mostrar as fotos. Eu te chamei, disfarçando essa inocência com algum conhecimento adquirido ao longo do tempo. E ostentando um resquício de orgulho,exibi meus valores, princípios e tudo aquilo que me fazia pensar ser uma mulher muito vivida.
E você respondeu com silêncio. Um silêncio de alguém que escuta, atento, a uma informação que na verdade poderia continuar não dita, mas sabe-se lá o por quê, naquele dia era algo que te importava. Dedicado em interpretar cada palavra, gesto e tom de voz, você me deixou falar. Quando ninguém mais no mundo me ouvia.

Eu te puxei pra cá porque queria falar de tristeza. Como uma criança que acabou de cair da bicicleta, eu vim correndo te mostrar o machucado. Exposto, ardendo, fazendo companhia a uma porção de cicatrizes. E, mesmo sabendo que ele, assim como todos os outros, iria fechar com o tempo, eu quis que você olhasse. Eu contei minha novela triste, aumentei o teor do drama. Me fiz vítima, entregue, cansada.
E você, outra vez, respondeu com silêncio. Esse silêncio confortável, um que existe enquanto a minha cabeça encosta no seu ombro. Um silêncio que cuida, faz o tempo passar, diz mais do que qualquer conversa de regeneração. Preocupado em fazer o resto do caminho valer à pena, você colocou um abraço ao meu redor, e eu voltei a pedalar em segurança. Quando já achava que nem tinha porquê seguir.

Eu te fiz ficar porque queria falar sobre alegria. Queria te contar do quanto ainda me admirava descobrir algo tão doce, quando todos os doces já me pareciam amargos. Eu quis te falar do sol que eu vejo mesmo quando fica nublado, do tanto que o meu peito se aquece mesmo nesses dias de inverno. Quis avisar do quanto o tempo me surpreende, de como o contraste da vida aumentou, do quanto cinco dedos entrelaçados aos meus fizeram tudo ser possível.
Você me abraçou e me fez dançar no quarto. Riu dos meus defeitos e me comprou um guarda-chuva novo. Me acordou com café da manhã na varanda e descobriu a melhor maneira de abraçar alguém enquanto dorme. Extrapolou a minha probabilidade de sorrisos e preencheu o predicado de tudo em que hoje eu sou sujeito. Inspirou, acolheu, fez melhor e falou o que sempre precisei ouvir. Uma resposta sincera, completa, inédita.

E aí fui eu que calei.
Porque quando não sou eu que falo, quando o meu coração palpita e eu calo, é você que fala em mim.
E quando a gente fala junto, quem se cala é o próprio mundo,
pra ouvir falar de um amor sem fim.



Obrigada por esses 7 meses, amor.Eu nem imaginava que poderia ser feliz assim.



- Texto de setembro/ 2007

Dente por dente

Ele tinha uma maneira especial de perceber os sabores da vida. Um dia amargo, um sorriso doce, o preço salgado. O paladar era o mais aguçado de seus sentidos. E por mais que o gosto dos momentos realmente se ampliasse em diversos sabores, os desse homem se traduziam em apenas dois: menta e hortelã.

Responsável pela gerência criativa de sabores de uma fábrica de cremes dentais, Renato Albério acreditava no frescor de suas idéias. A empresa era a grande detentora de um mercado bastante recente e ávido por dentes brancos e hálito puro. Um verdadeiro sucesso. Estavam literalmente na boca do povo.
Empresário renomado da década de 50, acabara de receber uma bonificação da empresa. Constantemente surpreendente, o homem rodava o mundo através de novas possibilidades. Naquela semana, havia voltado da Austrália com um novo sabor na ponta da língua: eucalipto.
E então, uma nova era se fez.Concorrentes esperneavam, gerentes comemoravam, clientes sorriam contentes. Escovar os dentes era uma experiência feliz.

Com tom satisfeito e uma ponta de orgulho, Albério reunia seus filhos todas as noites ao redor da pia, e contava emocionado sobre como era difícil escovar os dentes com carvão na sua infância. Graças ao papai, hoje tudo era melhor. O refrescante sabor dava água na boca. E além de tudo, prevenia cáries. Seu trabalho era tão importante!
Mais um dia começava bem e, por culpa de Albério, refrescante. Mal sabia ele que, assim que entrasse em sua sala, uma notícia o faria cerrar os dentes: parece que a criatividade também havia sorrido para seu concorrente. Com consultores especializados em culinária, a empresa rival inovava com uma bomba no sabor tutti-frutti.

A garotada foi ao delírio. Até adultos experimentaram. Havia até quem comesse o produto, por simples e puro prazer.
Albério ficou de boca aberta, mas não engoliu. Defendia sua empresa com unhas e dentes, e não deixaria aquilo barato. Respondeu ao ataque da melhor maneira que conhecia: inovando. Assim, viajou mais uma vez pelo mundo, à procura do sabor que revolucionaria vendas e sorrisos. Seria refrescante, surpreendente e levemente doce, porque esse é o gosto que a vingança tem.
Apesar de se empenhar bastante, suas tentativas eram ousadas demais. Acostumado a vencer pela surpresa e talvez um pouco desesperado pela situação, Albério acabou apostando em escolhas que desafiavam qualquer dentista. E, sem querer, incentivavam a concorrência a apostar em sabores parecidos, porém bucalmente viáveis.

Quando apareceu com a pimenta, responderam com canela. Quando trouxe o sabor “salada light”, responderam com Juá. O coitado vivia dando com a língua nos dentes e nada parecia funcionar.
Ao ver seu cargo caindo em ruínas, os superiores de Renato Albério resolveram dar um voto de confiança ao rapaz. Afinal, se aquela empresa chegara a fazer tanto sucesso, a culpa era dele. Dele e da hortelã, da menta e do eucalipto. Aquela seria uma chance única, a última oportunidade de Albério provar o sabor da vitória.

E assim, com muita coragem e um escapulário de sua fiel padroeira, a Fada do Dente, o rapaz abre sua pasta na sala de reuniões, semanas depois.
Sem esconder a surpresa e cumprindo a promessa do voto de confiança, os supervisores resolveram apostar. “Algodão doce”, “macarronada” e “churrasco” sem dúvida representavam algum tipo de inovação.
O sucesso foi surpreendente. Não demorou para que os exemplares sumissem das prateleiras. E fossem diretamente para pias, bocas, dentes e… almoços.
Maravilhados com a incrível semelhança dos sabores com seus respectivos “pratos”, os clientes passaram a substituir parte de suas refeições ou temperá-las com o delicioso produto. Pensavam, provavelmente, que estariam unindo o prazer de uma gostoso jantar à prevenção de cáries.

Albério sorria à toa com a glória adquirida, mas novamente não estava preparado para o que viria. Por causa do abuso com que as pessoas passaram a usar o novo “tempero” na culinária,epidemias de má digestão e intoxicação pipocaram pela cidade. Hospitais estavam lotados, famílias depredavam fábricas, homens e mulheres batiam boca com funcionários. E foi assim, num apertar de tubos, que tudo mudou.

Desempregado, Albério sentiu o gosto amargo do fracasso. Muitos compartilharam de sua dor, decepcionados por terem que retirar aquele antigo retrato da parede de funcionário do mês. E, por muitos anos, ninguém mais o viu.
Às vezes, alguém ouve falar dele pelo boca-a-boca que corre na cidade. Alguns dizem que ele seguiu carreira como dentista, outros contam que seu fracasso foi ainda pior, quando o pegaram com a boca na botija, tentando roubar receitas. A verdade é que hoje Albério vive tranqüilo, em uma cidadezinha do interior, numa casa cercada por plantações de eucalipto e hortelã.

O gosto da modernidade às vezes não cai bem, e atropela quem quer que seja com a dor de um soco no estômago. No caso de Albério, foi bastante indigesta, mas o fez repensar no lado mais gostoso e açucarado da vida.
E hoje ele é sábio e feliz. Com seus filhos ao redor da mesa e um pequeno pedaço de carvão no gabinete.



------------------------------------------------------------------------------------------

Furei a bolha! Talvez minhas loucuras de monografia e tempo escasso tenham me rendido essa breve capacidade de falar de algo que não seja eu. Mas, já falei, é breve.

Juros de amor

Até quem tem sorte na vida já deve ter notado que nada aqui é de graça. Esses presentes que surgem inesperadamente, materiais ou não, cobram do favorecido algo como taxa de entrega, de manutenção ou de encheção de saco mesmo. Deus tá muito ligado na economia e mar de rosas era coisa lá do Éden, ou seja: o tempo da mamata já foi e ser feliz hoje em dia é um custo. Muito alto, por sinal.

Se batalhar para conseguir alguma coisa torna a conquista mais saborosa, não vá pensando que a vitória será plena. Nunca é. Cedo ou tarde aparecerá a dúvida, o obstáculo, a dificuldade, ou até aquela vontade banana que todo ser humano tem de querer ter mais. Algo como se a vida ou sua própria consciência exigisse de você uma prova concreta de merecimento por toda aquela alegria que resolveu aparecer.

É aí que mora a taxa de manutenção e é neste momento em que os obstinados têm que se manter seguros e tolerantes, para nunca deixar de ter o bem adquirido. Em outras palavras: sangue de barata. Aguente, suporte, mantenha o pensamento positivo e prenda-se à tudo aquilo que te faz querer tanto viver assim. O problema passará.
Porquê problema é uma coisa que existe, e se não fosse isso, também não existiria graça. Nem os livros de auto-ajuda e provavelmente, nem este blog.

Não parece justo a existência de algo como mensalidade, por outro lado também não me agrada o comodismo e a indiferença. Independente da minha opinião, é fato que tudo que é bom, merece esforço, e não inicial, mas constante. Algo como uma armadura que existe apenas por ter a consciência de que toda ilusão tem a sua realidade; toda frase tem sua vírgula,todo riso precisa de pausa pra respirar.Toda rotina uma hora tem quebra, todo caminho uma hora tem pedra, todo fim de semana tem seu domingo.

E todos os meus domingos têm uma volta pra casa, todo ano tem seu inverno, e pra mim, todo o frio se concentrou nos últimos dias. Talvez seja só uma provação querendo balançar o meu iglu resistente, talvez seja só outro ângulo de se ver uma realidade que faz bem, mas também faz falta.

É o preço que se paga por fazer parte do time da resistência. Aquele que joga duro, mas que normalmente ganha. E a gente sabe que conseguir permanecer nele não é fácil, mas vale a pena. A diferença de quem consegue ou não, é que eles colocam o inevitável no meio, e não no fim. Simplesmente porque o fim não existe para aqueles que acreditam. E lembrar disso não custa nada.




Os deuses vendem quando dão.. melhor saber”. (Skank)



- Texto de agosto/ 2007

Por linhas tortas

Dona Ana foi sempre uma pessoa notável, apesar de muita gente nem saber dizer o porquê. Nasceu na década de 50, anos dourados que lhe renderam fotos bonitinhas em preto-e-branco, de sapatinhos pretos e meias brancas até o joelho. Com sua franja tupiniquim e cabelo chanel, relutava em entender porque é que tinha que ir todas as manhãs até a Igreja assistir à missa, já que diziam que Deus estava ali com ela o tempo todo. Mas era uma mocinha feliz, tanto porque naquela época, tristeza era algo que nem existia. Aliás, esse negócio de questionar a própria existência nunca foi moda naqueles tempos; depressão é mesmo uma doença da modernidade.

Na época do aniversário, aí sim ela adorava. Com família grande e pouco dinheiro, presentes eram coisa rara. Aproveitando a ocasião, Ana fazia festinhas e cobrava presentes de quem quisesse entrar. Desprevinidos, os convidados corriam ao mercadinho mais próximo para não fazer desfeita - a família perdeu a conta de quantos sabonetes e cremes dentais ganhou em ocasiões do tipo.

Assim ela cresceu sem fazer muitas perguntas até a adolescência. Aí virou rebelde, namorou um japonês e saía com as irmãs mais velhas para as festinhas do colégio. Quantas vezes, entrando cedo em casa na ponta dos pés, encontrou dona Geralda na porta, pronta para mais uma manhã de missa. A senhora olhava orgulhosa:“Minha filha, que bom, já está até pronta.” E lá ia Dona Ana bocejar nos bancos de madeira.
Sua mãe era uma mulher enérgica, que guardava um pouco de melancolia pelo casamento arranjado e um pouco de bondade porque Deus ensinou assim. E Ai se um de seus filhos não viesse ao primeiro chamado: era chinelada, puxão de orelha e até cinta nos casos mais graves. Aninha levava um dos três quase toda a semana.

Lá pelos 20 anos, ela estava no auge. Anos 70, sabe como é. Fã do Wanderley Cardoso, aprendeu a beber, aprendeu a fumar e só não se metia em encrencas maiores porque tinha mais 12 irmãos com quem dividir a culpa. Trabalhava o dia todo numa cidade vizinha e dormia a aula toda, exceto nas sextas, quando se entusiasmava com o vinho na beira da estrada. E com a própria estrada. Absorta, ela gostava de olhar o percurso pela janela do carro, brincando de tentar encontrar o fim da rodovia e adivinhar por onde sua vida passaria nos próximos minutos, como se pudesse prever o futuro ou coisa assim. Aí ela perguntava a si mesma até onde uma vida tão comum poderia ir. A mesma rotina, os mesmos irmãos, aquela mesma vontadezinha interior de mudança urgente, mas que nunca acontecia. Aonde tantas coisas banais a poderiam levar?
As respostas nunca vieram do jeito que Ana queria, mas vieram, porque a rodovia continuava lá, e ela continuava andando.

Mestre nas atividades domésticas desde a infância, Ana conseguiu se especializar em diversas outras atividades, mas no momento se concentrava no cargo de secretária executiva. O chefe? Um cara meio grosso, que combinava calças listradas e camisas xadrez. Por mais estranho que o cara fosse, servir café e anotar compromissos para ele era até simples. E de simples foi ficando gostoso, já que os agradecimentos que ela passou a receber vinham em fitas cassete, com músicas românticas. Uma delas virou tema do casamento.
Juntos, foram morar em São Paulo e compraram uma casinha numa rua bonita. Passavam as férias em Guarujá, e foi lá mesmo que 2 anos depois, sentada na areia, Ana sentiu uns tremiliques na barriga. Deu 9 meses e o tal tremilique saía peladinho dela, enquanto o médico suspirava por ver o bebê preguiçoso vivo e a mãe dizia meio chorando, meio sorrindo: “bem vinda, Mileninha”.
Ana ainda gosta de olhar pra estrada, e tem dias que ainda se pergunta até onde uma vida como a dela pode continuar indo. Onde algo tão banal poderia parar?

Bom, há várias possibilidades. Uma vida como a dela pode parar num sofá preguiçoso, enquanto ela acredita que a estrada já teve fim. Pode parar num 23 de novembro qualquer, quando ela pensa que já não há mais pelo quê comemorar aniversários. Pode parar numa caixinha de recordações, no meio de fotografias empoeiradas. Ou pode continuar vivendo nos olhos de duas menininhas pequenas, que herdaram amor e percepções suficientes para entender que nenhuma vida, principalmente a dela, teria algo de banal.
Hoje eu vim pra cá olhando a estrada.



- Texto de agosto/ 2007

Muito moderna




Não é de se admirar que meninas precisem de revistas, livros e muita didática quando estão passando pelo árduo processo de se tornar mulher. Eu digo e sei que muitas concordarão: o negócio não tá fácil, aliás, nunca foi. A minha sorte é que, conforme fui crescendo, a tecnologia crescia junto. Com ela, a internet veio e trouxe a facilidade de se marcar encontros e conhecer pessoas à fundo, sem precisar vencer a timidez de um contato pessoal.

Pois bem, lá estava eu no bate-papo do Uol. Já tinha dado o primeiro beijo, já tinha internet, já tinha 14 anos… Uma verdadeira mulher pronta para as aventuras da vida. Como vários outros adolescentes também se achavam igualmente maduros, não foi difícil encontrar um garoto disposto a socializar. Depois de muita conversa interessante baseada em informações do tipo “de onde tc e qtos anos?”, o próximo nível foi o telefone.
E aí todos já sabem né, eu sou essa mula que se apaixona à toa. A voz do bendito tornou-se motivo da minha alegria diária e o jeito carinhoso dele me fazia crer que os avanços tecnológicos eram a resposta para meus anseios. Não deu muito tempo e pronto: marcamos o encontro.
Acordei mais cedo no dia. Ansiosíssima, escolhi a roupa por umas três horas. E tem coisa mais irritante e ao mesmo tempo deliciosa do que se arrumar para um primeiro encontro?
D e repente, o shampoo diário já não é bom o suficiente, e vale apostar numa nova receita caseira para deixar cabelos bonitos. As roupinhas da Renner já não combinam para a ocasião, e será muito melhor tentar aquela saia de flores que nunca viu a luz do dia. Já que encontros de internet são um risco, também valia arriscar nas inovadoras e milagrosas tentativas de beleza.

Agora, um momento. Está comprovado que meninas contemporâneas de 13 aninhos estão loucas para explorar sua sensualidade inexistente. Eu, nos meus 14, mal sabia usar um salto. Mas naquele dia, descobri algo que mudaria em vários centímetros o meu ponto de vista do mundo: eu tinha pernas. E quem tem pernas, precisa cuidar.
Assim, no auge de um verdadeiro “dia da noiva”, fui à caça do arsenal depilatório da minha mãe. Pinças, lâminas, papéis, cera quente, cera fria e nenhuma instrução, nem mãe em casa. O desastre estava armado. Mas tá pensando o quê, eu sou extremamente inteligente e sempre soube me virar sozinha. Derreter essa porcaria de mel vai ser moleza, assim como todo o resto. E precisa ser feito, afinal, ninguém merece sair com uma gorila.
Acabou que deu tudo certo. Estavam lá, duas pernocas branquelas e lisinhas. Eu nem acreditava que tinha conseguido. Ávida por um novo desafio, fiquei me perguntando que pêlo do meu corpo resistiria à toda aquela técnica inata. E me olhei, buscando vítimas. Fui achar onde? No rosto.
É mais chique chamar de “buço”, tanto porquê, pra uma mulher chegar a ter bigode, assim com esse nome, precisa se esforçar. Enxerguei 3 ou 4 pelinhos ali e fui com toda a vontade. Botava a cera, puxava… e nada. Passava de novo, puxava.. e neca, nenhum pelinho. Já na sexta tentativa do passa-puxa, o resultado foi diferente: não tinha pelo, mas também não tinha pele. Ficou uma ferida horrenda no lugar.
Aí eu parei, me olhei no espelho.. fiquei muda.. e, como nos desenhos, duas orelhas de burro se desenharam em cima do meu reflexo. Dali duas horas conheceria minha nova paixão e apareceria assim, com um vermelhão no bigode?

O desespero tomou conta. Botei chá de camomila, gelo, creme calmante e corretivo facial. Ficou uma bosta. O garoto certamente manteria distância, imaginando que meu espirro é ácido.Mas eu fui, com a saia de flor e o cabelo duro por causa da receita caseira de condicionador que, obviamente, não deu certo.
Pô, o menino era bem bonito. Trouxe um amigo, eu levei uma amiga, e fomos todos nos conhecer melhor no cinema, porque lógico, é o lugar “perfeito” para conversar (e para esconder trapalhadas estéticas).
O resto da tarde passei com uma expressão discreta, falando com a mão na frente da boca e ensaiando movimentos tímidos, que disfarçassem a desgraça.
Nunca mais dei muita bola pra esses encontros às cegas, e passei a evitar essas aventuras mal pensadas. Segurança é item que toda mulher tem que carregar na bolsa, pra evitar esses tipos de risco que podem estar por toda parte, bem debaixo do seu nariz. Vai por mim.



- Texto de agosto/ 2007

Jogo de cintura



O sociólogo dirá que tem a ver com o "jeitinho" brasileiro de se esquivar, de dar um jeito em tudo. O sambista vai falar que é uma nova dança, derivada do pagodão do crioulo doido. Já a Milena, dirá, metendo o bedelho (como sempre), que é justamente do que ela e a mulherada precisam no momento.

Dos dois termos. Primeiro que quanto à minha cintura, só será de boneca quando a "Barbie sedentarismo" estiver no mercado. E segundo, que o jogo em si já tá daquele jeito, né. Tabuleiro furado, peças perdidas..

"O que não pode é perder o rebolado". Como Carla Perez, sou uma ótima estátua. "Rebolar" só se for por analogia mesmo e é aí que o juiz apita. O rebolado é necessário.
Talvez não aquele da "dançarina" acima. A não ser que seu intuito seja fazer uma confraternização com os companheiros do bar do mané...

Passemos então à versão útil da coisa. Por falar nisso, nenhuma metáfora aqui já foi tão útil. Mexer a cinturinha nunca foi tão proveitoso. Saber fazer isso BEM é que é o importante. E há segredos para tanto remelexo sem cair do salto?

Minhas amigas (momento Oprah Winfrey), o tal segredo existe. Mas quem sabe não o dirá. Faz parte do jogo. Jogo da experiência bem aproveitada, talvez.

Ter jogo de cintura equivale a se dar bem no bombardeio. Sair do labirinto, enfrentar o problema e fazer bonito. É ter criatividade, ser flexível. Somar 2 mais 2 e tirar 5.Ser mulher e fazer bem feito.

Como diz um amigo meu, é ter "malemolência". Não deixar a peteca cair.
Por favor, sejamos garotas espertas. Daquelas que só descem até o chão sob efeito de álcool e ao som de "Boladona". Na vida real? Nem pensar. Desceu um degrau, sobe dois. E faça a barra dessa calça que nenhum contato com o chão será permitido.

Sabe fazer um barquinho pra se salvar do tsunami? Sabe ganhar um limão e fazer deles uma limonada suíça? Ganhou dinheiro com a poesia sobre a última desilusão amorosa? Bem vida ao time, cinturinha. Prepare-se para o próximo bambolê.

É necessário. O mundo (ainda) é machista e nós sabemos. Nos resta a tal tática, afinal, cintura só nós temos. Fazer direitinho é o mínimo. É a estratégia de aproveitamento das circunstâncias. Delineia o que você é e o que você pode. Se pode carregar uma cruz pesada de madeira ou só um crucifixo de strass no pescocinho.

Faz tempo que ser mulher não significa só cabelo comprido, saia e batom. Quem quiser mais, vai ter mais. Quem souber mais, vai ser mais, por proporção.
Cabeça erguida, tropeços vencidos e cintura requebrada.
Porque mulher boa não rebola a bunda, mas ganha aplausos do mesmo jeito.

Intacto

Vinte dois muros ao meu redor, nenhum deles deixa passar um fio de cabelo se assim eu decidir. Lembranças escalam os tijolos, nuvens tentam atravessar o limite, fracassos batem à porta. Porém nada coloca os pés naquela terra que eu determinei com unhas cravadas no chão e dores infinitas no peito. O mundo pode estar cinza e frio, pode desabar em palavras de desilusão ou tédio, pode apodrecer em seu devido entendimento: eu me alojei em termos de segurança, estabilidade e auto-preservação. Um egoísmo legítimo, algo que me faltava por toda a vida, como uma criança órfã que finalmente encontra pernas quentes para se esconder do caos ao redor. E tão infantil quanto ela, eu me enfio debaixo da cama todas as noites, decidindo em segurança entre ser a menina ingênua que se expõe a queimaduras ou a mulher bem resolvida, cheia de mistérios e expressões que te convençam na mais doce mentira. Coisa que logo vai embora, assim que limpo a maquiagem do rosto e me agarro a um pedaço de pelúcia na hora de dormir, para reinterpretar as amenidades do dia aos meus coloridos modos.
O tempo te faz adquirir disfarces convincentes, por mais que você os odeie. Ele permite que você encubra a verdade, que erga sua cabeça enfileirada com tantas outras iguais e repita como um hino a dolorosa canção dos céticos na cura e na linguagem do amor. Uma hipocrisia aceitável, logo quando você sabe, você sente, você dói e se culpa a cada lembrança mal resolvida. Quando você custa a acreditar nas boas intenções daqueles que inventaram as tramas clichês de casamentos eternos, e odeia a maneira como eles ainda te fazem esperar sorrindo. Culpa comportamentos, cobra mais existência do ar e acelera o tempo dormindo, até acordar e ter a idéia mais brilhante de todas, a mesma que seus pais arquitetaram quando queriam deixá-la entretida e ganhar um descanso daquele bebê inquieto que beirava os dois anos: você se cerca.
Como numa guerra, empilha os mantimentos, tranca a veracidade do lado de fora e cria suas próprias ilusões e regras; a constituição perfeita daquele mundo que flui perfeito por que é completamente seu. E aí você descobre que para ser completamente feliz, só basta decretar.


- Texto de julho/ 2007

Espera



A gente está sempre esperando alguma coisa. Antes mesmo de nascer, 9 longos meses de espera. E para quê? Pra sair e continuar esperando. Esperando o ônibus, esperando o fim de semana, esperando o bolo sair do forno, esperando que amanhã faça um dia bonito… Viver é esperar. Até o tal do Rogério Fausino, com seu sotaque interessante (o tipo de coisa que eu espero que mude), andou dizendo por aí que “vivemos esperando dias melhores, dias de paz, dias a mais que não deixaremos para trás”.
Mentira! Basta que o bendito dia esperado chegue, para que uma nova espera tome o seu lugar.
Cientes da importância do fenômeno da esperança e da incapacidade humana de viver o momento presente, corporações ao redor do mundo resolveram criar até salas específicas para o fim. E foram além: conceberam as listas de espera, as filas de espera, as chamadas de espera telefônica…O mundo, definitivamente, é uma verdadeiro salão gigante de espera, onde todos ficam sentadinhos e impacientes aguardando um futuro que nem sabem se vem.
Mas “quem espera sempre alcança”, e , seguindo essa filosofia, eu também estava lá. Esperei sentada, esperei deitada, levantei algumas vezes em alarmes falsos que faziam tudo dar errado, por mais que eu sempre esperasse o melhor. Cansada de voltar cada vez mais desiludida à velha condição, eu já estava à espera de um milagre.
E aí você apareceu.
Daí pra frente, sobrou um lugar na sala. Teve até gente que estranhou, que não gostou e até me esperou voltar. Também pudera, onde é que já se viu algum ser vivo resolver parar de esperar? Mas eu levantei e saí numa boa, porque muita coisa estava lá fora pra ser feita. Os papéis se inverteram e não era mais eu quem esperava. Finalmente eu tinha um final de semana maravilhoso me esperando, uma cama quentinha me esperando, um abraço me esperando quando eu descesse do ônibus. E por mais que eu tivesse achado um amor que nem esperava encontrar, desde então me esforcei pra tirar o máximo dele. Não há mais o que esperar quando eu já tenho mais do que eu poderia querer. Pensando bem, há sim: eu espero viver com você, viajar com você, construir sonhos com você. Hoje, toda espera é mais gostosa, porque leva seu nome junto. E esse nome tão simples já significa pra mim muito mais do que letrinhas unidas: significa a vida que eu deixei escapar em cada espera mal sucedida. Significa a vida que eu quero ter e me orgulhar pro resto dos meus dias. E significa a vida que eu sempre traduzi em amor, porque você É amor e tira amor de onde menos se espera.



- Texto de julho/ 2007

Meu diabo é burro

Tenho um maneira patética de ser má. Chega a ser ridículo. O diabo sentado no meu ombro esquerdo, além de lerdo, é burro. Vai ver eu deveria ter visto mais filmes de terror ou prestado mais atenção nas vilãs do que nas mocinhas sofredoras e seus casamentos que resolvem tudo. Mas nãão, eu quis saber dos esquilos, da fada madrinha, do vestido rodado. O resultado é isso que se vê:uma criatura que faz força até pra falar palavrão. Me odeio por isso.

O gene Sandy atrapalhou minha vida por anos. Atrelado à notável qualidade, minha incapacidade de gritar, fazer escândalo e dar tabefes em quem bem merecer auxilia na criação de uma imagem banana em discussões mais acaloradas. "Mamãe ensinou que conversar resolve tudo". Mentira! Segundo minha árdua jornada, tem horas em que rodar a baiana é a melhor solução. Mas de baiana eu não tenho nem o sotaque, portanto há momentos em minha memória em que, enquanto muitos virariam o incrível Hulk, eu me transformava na "incrível mulher que encolheu".

Por falar em mulher, já briguei com algumas. Com homens também. E a merda (opa!) é que fica ridículo chamar de "briga", sendo que eu sempre segui a opção besta de manter o tom de voz, esfriar a cabeça e perdoar. Definitivamente, uma mula. E relacionar com animais é bem útil nesse caso, já que são sapos os engolidos.

Dia desses eu passava pela rua e uma caravana de pedreiros/caminhoneiros enfiada num carro fez o favor de me acompanhar por alguns passos, com todo o carinho que só esse tipo de homem pode demonstrar. Palavras dooooces, mas que, por algum motivo, atiçaram a minha ira. Num ímpeto de maldade, reuní tudo o que há de pior em mim e direcionei à ponta do meu dedo médio. Que orgulho, Milena, você conseguiu! E teria sido lindo, se a ponta do seu pé esquerdo não entrasse num buraco da rua durante o ato de ousadia.
O tombo foi espetacular.Eles riram, eu ri. E, apesar de ter a louvável capacidade de rir de mim mesma (do contrário, perceba, seria uma vida difícil), eu entendi, de uma vez por todas, que não nasci para orgulhar o demo.

De qualquer maneira, venho tentando me aperfeiçoar ao longo dos anos. E, com a devida cautela para não tornar minha garganta um tobogã de anfíbios, me rodeei de fatores que me impulsionassem em direção ao vil objetivo de tornar minha personalidade áspera, uma verdadeira lixa!
Tenho uma colega de trabalho que inspira ar e expira palavrão. Tenho escutado rap de gângsters americanos que fazem melodia com os mesmos termos (se é pra ser malvada, que seja bilíngue!). A minha vida mesmo torna-se por vezes provocativa, já que de vez em quando coloca um filho do capeta para instigar minha paciência.

Visto tudo que eu já vivi, não há Buda que prenda o grito. Portanto, preparem-se:a insatisfação é minha mais nova inquilina e tem o megafone nas mãos. Ela vai gritar quando achar que deve, reclamar quando achar que deve e revolucionar essa mocinha com tons mais escuros, frios e cruéis. Me defenderei com unhas, dentes e dedos médios. Serei o problema da perversidade retroativa, considerando até a má educação, maltratando quem resolver se opor sem pensar nas consequências. Um exemplo de antipatia, rancor e mau comportamento.

Já pensou?
Eu não. Seria maldade.


- texto de junho/2007

Sobre viver o meu dia



A escova de dentes que mantenho em casa de repente me pareceu um objeto estranho. Talvez essa que carrego na bolsa tenha hoje muito mais afinidade comigo que as coisas de fora. Antigamente, eu era presa a chinelinhos de quarto e pilhas de travesseiro que me apoiassem de forma confortável para assistir televisão. Hoje, faz 10 graus no centro, tenho essa rotina proletária e queria ter uma coluna cervical feita de borracha, pra poder me enrolar e aquecer as pernas de alguma maneira. Interessante também seria uma cola capaz de segurar ponteiros de relógios, mas meu dia tá moderno e o relógio é digital. Tá tudo mudado e eu não me acostumo, mas me rendo - disseram por todos os anos que em algum dia as coisas ficariam assim. E eu deveria saber que essa minha falta de circulação nas mãos traria problemas, e que o mundo deveria ser mais do que mãozinhas quentes enfiadas dentro dos bolsinhos da calça do pijama.

Eu tenho saudades do meu pijama, da minha mãe e dos chinelinhos de quarto (do próprio quarto), do tempo analógico e de quando tudo isso me bastava. Existe sim uma correnteza forte puxando minhas pernas geladas e, por mais que eu queira, me odeio por ir. É o tipo de lógica que não me faz sentido, coisa que eu encaro desde que fui cordialmente apresentada às teorias matemáticas. A gente engole respirando fundo pra suportar o gosto ruim, mas olha para todos ao redor, finge que entende e diz que adora.

Eu adoro trabalhar. Adoro essa minha escova de dentes dobrável e a minha bolsa enorme, pra caber meu novo mundo. Enquanto tem sol pra me aquecer lá fora, adoro congelar os dedos digitando. Adoro perder idéias e tranquilidades por aí porque tenho coisas da faculdade pra fazer. Eu só odeio o fato de admitir que se tivesse tempo, não curtiria o sol, nem teria idéias, mal perderia minutos colocando uma luva. Simplesmente enfiaria minhas mãos dentro do bolsinho da calça do pijama e assistiria, comovida, o simples dom de existir.

Virei escravinha de alguma coisa, nem sei se é de mim ou do relógio digital. Em certo dia do ano 2003, foi necessário ganhar algemas. Aí eu floreei as minhas com a escrita, só pra me dar um sentido nesse meio. Pra quando olharem essa minha cara de apresentadora de programa infantil, eu pudesse subir a voz e dizer que sei das coisas e tenho motivos pra estar nessa roda. Está muito claro pra mim que eu ainda preciso aprender certas verdades (mesmo as inventadas), aprender principalmente a me desprender de detalhes simples, mas ainda vitais. Talvez eu ainda não tenha aprendido porque não queira, ou porque por mais brilhante que o mundo faça parecer certos sistemas, o metal dos objetos modernos e tecnológicos não me aquece.

Eu entrei no jogo porque é assim que funciona, mas mantenho percepções que guardam meu lado mais cabeça dura, teimoso e imutável.Elas gritam nessas segundas-feiras cheias de frio, frescura e má adaptação: por mais que essa porcaria de correnteza me leve, eu ainda faço questão de nadar do meu jeito.




- Texto de junho/2007

Um pouco de pai




02 de outubro de 1984
9:30 da manhã


- Alô! Pode avisar todo mundo aí que acabou de nascer a menina mais bonita de São Paulo!


Tá bem que ele não foi muito verdadeiro, mas sabe como é pai recém nascido. A dona fotógrafa explicou esse "como" num clique. E eu adoro olhar essa foto. Adoro esse sorriso verdadeiro dele, tenho tanta saudade..
Só trinta minutos de vida e eu sentia, juro que sentia,o primeiro homem no mundo me amando. O "primeiro da raça maldita", mas esse era meu. E ele não se conteve, teve que ligar e avisar todo mundo da existência de mais um serzinho. Mas eu era o serzinho dele, e ali o nosso mundo existia.

Hoje nossa ligação é curta. É rara, de longa distância e vive falhando. Não me lembro da última vez que vi um sorriso assim no rosto dele. Não me lembro da última vez que senti esse homem presente com tanto amor pra mim.E se eu vi, foi de relance. Ou com uma dessas técnicas que desenvolvi para incrementar a realidade que incomoda.

Eu não queria que fosse assim.
Há uns anos atrás, no auge da minha adolescência, incluí na minha visão confusa do mundo essa nossa relação (que de relação pouco tem). Depois de muito sofrer, me culpar e esperar o inexistente, fiz o que mais odeio fazer nessa vida: me conformei.
E hoje, mais do que me conformar, eu entendo. Entendo o jeito distante dele, entendo os motivos daquele olhar sério e entendo as diferenças que nos tornam tão opostos. Só há uma coisa que mesmo em 23 anos não entendi: a nossa capacidade indiscutível de nos decepcionarmos um com o outro.

Eu me decepcionei porque tentei te amar e você não quis. Me decepcionei, porque o mundo colocou pessoas cruéis na tua vida, que através de você, também foram cruéis com a minha. Me decepcionei porque, mesmo escrevendo cartas pra você duas vezes ao ano, desde os 7 anos, nunca recebi uma resposta. Me decepcionei, porque sua falta de amor me fez não saber exigir amor dos outros, nem de mim mesma. Me decepcionei por cada "eu te amo" que eu não ouvi e, se ouvi, foi tão baixo que meus sentidos não perceberam. E hoje me decepciono por continuar esperando o tom de voz daquela ligação.

Mas eu realmente entendo, porque ser paciente, além de ser o que eu melhor sei fazer nessa vida, é uma das poucas coisas que puxei dele. Não puxei o olho verde e a visão prática do mundo, mas puxei essa virtude, que bem utilizada pode me capacitar a fazer coisas impossíveis, como não morrer de inveja quando vejo um pai carinhoso.

Ser paciente. Ser pai ciente (eu não resisto). Ciente do quem eu sou e do que me faz feliz. Dois fatos básicos, invisíveis na mesma proporção. Na falta, eu tento tornar real, eu me viro, porque isso eu também sei fazer bem. E sigo buscando na vida algumas lições de ternura; buscando nos outros o orgulho que eu queria que viesse de você.. Me esforçando pra ser alguém, driblar teu negativismo e provar que eu posso ser digna da sua admiração.

Porque hoje eu sei me querer bem, cuidar de mim e plantar amor ao meu redor, mesmo sabendo que ele não crescerá no teu peito. Hoje eu sou sua filha, mas também sou meu pai. E posso, com respeito, amor no peito e coração quebrado, te ensinar um pouco sobre a vida. A minha, por exemplo.

Ainda te amo.



- Texto de maio/ 2007

A Teoria da Campainha




Desde muito tempo, venho alimentando hipóteses e comprovando dados que me fazem crer cada vez mais em uma não nova, porém factual e brilhante teoria que ronda a maioria dos relacionamentos atuais: a teoria da campainha!

Indubitavelmente aplicável à maioria masculina (salvo raros - e já não disponíveis - casos), ela se resume em 3 atos simples:


Primeiro (e mais importante): O toque da campainha.

Lá está Renato Albério, louco pela morena de quadris largos. Começaram se olhando, se querendo, papo vai, papo vem, e de repente nada importa mais que colocar as mãos naqueles quadris.
A partir daí, a conquista moverá continentes. Drummond será ressuscitado. O Papa, convocado. Julio Iglesias, incorporado. Dívidas se perpetuarão sem que nenhum bolso se preocupe. E o vivente fará o bonito e convincente teatro da sedução.
Agora, atenção! Até aí, nada fora do normal. Até animais fazem isso. Pavões fazem isso. Baleias fazem. Todo homem tem o direito de fazer, e mulher romântica que se gosta e vê novela, gosta de receber. É o sistema prático das relações.Porém, diferentemente do pavão e da baleia (sinceros em seus objetivos), o homem mente. Ou melhor, omite sua principal intenção.E é aí que entramos no segundo ato.


Segundo ato: a abertura dos portões

Ela cedeu (se deu).
Nem a conquista da América foi tão gratificante. Tudo agora é possível. Você é o cavalo reprodutor, a danada caiu na sua rede e Djavan hoje mora no seu Ipod. É romance, é perfeito e é gostoso. Não representa esforço manter o nível e convencer mais um pouco. O amor está aí pra isso, pra embalar os corações, embalar aqueles quadris, embalar a TV que você terá que vender para pagar os gastos com restaurantes, flores e todo aquele escambau, que na literal prática do escambo - ou troca - seguiria fazendo sentido. Mas o peixe foi fisgado e durará por diversos jantares.
Inclusive, se pensarmos bem, com tanto peixe em casa, pra quê continuar jantando fora?
A lucidez volta. E te faz lembrar da Lucia, aquela colega de trabalho por quem você é tarado.Mas esquece! O amor ainda prevalece. E o investimento foi tanto, que não valeria colocar tudo em vão. Entretanto, nas leis atuais, vale o ser, não o ter. E é aí que se complica a mente biologicamente desenvolvida para a disseminação do, digamos, "amor".


Ato 3 : De portas - ou portões - abertos para o que der e vier.

O que der - ou quem dará - nós já sabemos. A pergunta está no "quem virá", depois da falta dos antigos cadeados desafiadores. Ora, terras conquistadas serão nada mais do que exploradas até a exaustão. Desde 1500 tem sido assim por aqui. Faz-se a ocupação, arma-se a barraca, asteia-se a bandeira, tira-se o melhor dela e parte-se para novas conquistas. Lei da natureza unida à do descobrimento, meu bem. Vai ficar tocando na mesma tecla pra quê? Música boa é feita de diferentes notas.
E é seguindo esse pensamento besta que o príncipe desafina. E todo o bonito teatro vira um showzinho de rua. O peixe costumeiro do jantar já não agrada o novo vegetariano. Sem o antigo costume de elogiar o prato, satisfeito e com extinta educação à mesa, nosso herói instintivamente se levanta e recorre a novas iguarias. É a moderna lei das breves tendências e o mundo está como está porque homens não simpatizam com as idéias de reaproveitamento e reciclagem. Será no portão vizinho, na rua mais próxima ou numa ilha das Bahamas: uma nova campainha será tocada. Afinal, do que adiantaria continuar tocando a mesma campainha, se os portões já foram abertos?

Fim da teoria.


----------------------------------------------------------


Tá, eu sei, é machista. E tem um bando de cidadãos que dirá ser papo de mal amada. Mas ah, queridos, vocês erraram. Sim, posso dizer que não foram raras as vezes onde, após o romântico momento da conquista, todo o cuidado, carinho e brilho diminuiram até apagar (ou até eu cansar). Mas, no iluminado momento, digo que nunca fui tão bem tratada, por uma admirável e rara exceção. Como homem, não foge à regra, mas com atitudes, prova falhas na teoria.


Mas ainda acredito nela e alerto: aplica-se em 99% dos casos. Mesmo assim, seja otimista, menina. Vai que numa dessas, você também dá sorte e arranja um fora-da-lei para ser feliz em casas com diferentes portões. Do contrário, não se desespere: quebre a campainha. Pra te conquistar, agora, só batendo longas e sonoras palmas. E principalmente, vindo morar contigo.



- Texto de maio/ 2007

Pra bom entendedor




Imprescindível o que você fez por mim. Perceptível para qualquer um a mudança. Em 22 anos aprende-se pouco, mas o suficiente pra viver até tal idade e dizer: meu bolo de aniversário é poder te ver de cima. Percebeu a diferença? Volta por cima sem volta. Seu nome sem a mínima lembrança. Teus antigos dias com apenas uma relação: progresso.

Dizem que leva-se vinte e uma repetições para que alguém se acostume a fazer algo. Nem cem me fariam me acomodar por tão pouco. Nem meu pouco orgulho me sujeitaria a tanto. Hoje eu consigo encher teu vazio de palavras não com minha expectativa: enchi com experiência.

A partir daí não há vestígios, apenas minha gratidão: obrigada, mas obrigada mesmo,por cada decepção. Por existir com tão pouca vontade. Por duvidar que eu notaria. Por subestimar meus valores. Nunca, em meio a tantas histórias, fui jogada para tão longe do mal. E para tão perto de mim.
Ontem você me afastou. Hoje, é meu principal impulso.

Amor próprio, percepção e seletividade.Minhas portas continuam sem trancas, mas o alarme está ligado. E eu, mais do que nunca, imune.


Que você, um dia, tenha a mesma sorte.



- Texto de abril / 2007

Explicação

Dedicação e otimismo sempre foram as palavras-chave. E que metáfora oportuna ela tinha em mãos! Palavras como meio, chaves como desafio: para abrir de portas a corações trancados. Enquanto uns cavalgavam, outros colecionavam selos e outras pintavam quadros; seu hobby era simples e custava pouco: se entregar.
Engano seu achar que, com intenções tão polidas e argumentos tão puros, ela se valia apenas do bem estar alheio. Uma pequena parcela de egoísmo rondava sua cintura e lhe dizia para apenas fazer bem ao que lhe fizesse bem. E nesse mutualismo ela seguia, constante e por muitas vezes, insatisfeita pela sina escolhida.
Porque convenhamos, é uma escolha e é de cada um. O mapa astral não influi, o horóscopo não decide, a criação não determina. Mas por algum motivo nessa Terra, ela escolheu amar e se valer disso. Por mais que, vez ou outra, sentisse que pouco valia.
E não teime, não discuta. Desde o tempo da roupa tamanho 8 e da geladeira vermelha foi assim. Desde o primeiro cachorrinho e da falta de dinheiro pra comprar um pirulito foi assim. Desde o primeiro beijo e a primeira dança de parzinho na festa-junina. O mundo não existe, só este motivo. E ela se diverte quando dá, chora quando sente, desiste quando deve.
Eu não sei o que leva alguém a tamanha exposição e vulnerabilidade. Enquanto ela pula de bungee-jump sem checar previamente a segurança, eu só observo e rezo pra Deus cuidar bem dessa menina. Porque já foram tantas vezes, tantas dores, tantas fraturas expostas esperando uma longa cicatrização... Que eu nem sei. Nem sei se adianta tentar induzi-la a algum pensamento cauteloso.
Principalmente quando ela diz que tudo vale a pena só por acordar e saber que "ele" existe. E assim acreditar que ela também sabe existir.

Pra traduzir felicidade



Você desfaz o medo como opção e eu acredito, de olhos fechados e coração aberto, que dessa vez é a minha vez. Conduz dia, noite, barulho e silêncio com o mesmo objetivo que eu encontrei dia desses, quando olhava para o nada e começava a preenchê-lo com o seu nome. Desde então, o escuro não existe, o frio é confortável e as palavras têm vida. Questão de sorte, de merecimento, de puro acaso ou até de destino. Importa é que questão nenhuma ficou sem resposta depois de você.
Transformou causa em cura, e o vazio em dedos entrelaçados. Transforma meu amanhã surpreendendo o meu hoje, e preenchendo as lacunas que, agora eu sei, pareciam te esperar. De todas as formas e jeitos, o sentido do meu dia agora está no som da sua risada, no tom da sua pele, na temperatura do seu abraço. Nos seus pequenos detalhes que envolvem a minha realidade e aumentam o contraste das cores, o volume dos sons e o sabor dos momentos.
Posso ter mordido a língua quando disse que era o fim, e entregado minhas teorias de independência a uma comédia contraditória. Mas, mesmo sem achar graça, a ironia sorriu pra mim e, desde então o mundo tem sido encontros: a teoria encontrou a prática, a pergunta encontrou a resposta, a busca encontrou um fim.
Ao longo do tempo eu realmente me enganei em algumas convicções. Uma delas foi achar que meus sonhos tinham sido perdidos. E apesar de ter provas concretas de que eles ainda existem, gosto de constatar que desde que você chegou, eles têm realmente sumido. Você faz cada um deles ser real.

Te amo. Me guarda nas suas mãos, me leva pra sua vida, me deixa viver você.


- Texto de abril/ 2007

Miopia



Sensível capaz de sentir cada fio de cabelo bater no seu rosto, enquanto a correria do vento corria contra a sua. Capaz de tocar os dedos dos pés no chão, um de cada vez, quando o dia começava a acordar e levantar lentamente, com preguiça e dor em seu corpo. Era um peso morto, que já não pesava nada, porque era feita de lembranças vazias, de tom desbotado e cor de neblina. Inspirava o claro, o cru, a realidade tal qual se manteve parada em sua frente por anos, mas que aquele leve grau de miopia não a deixava ver. E hoje o dia era frio, duro e cinza, por mais quentes que fossem os raios de sol queimando suas costas pela manhã. Nada era complicado pelo tempo, pelas faturas ou pelo documento perdido na rua. Complicado era não saber se finalmente ela havia acordado ou se, como todos os outros, havia também fechado os olhos. E se, ao adormecer, a falta de sono e a sobra de cansaço roubavam seus sonhos, nem acordada ela ainda os tinha. Se bem que sonhar fosse, talvez, uma conquista de poucos. Daqueles poucos que permaneceriam acordados, coloridos e vivos, por mais alguns dias e desafios, imunes ao leve toque de crueldade que todo despertador nasceu pra ter. Ninguém saberia dizer o fim da cena, ou traduzir sua mania solitária de enrolar alguns fios de cabelo com a ponta dos dedos. Mas eu apostaria numa ironia, matéria-prima de toda história que é bem vivida. Eu cruzaria os dedos por ela, aflita por querer induzir cada segundo de seu tempo a uma nova oportunidade. Esperaria, tranqüila, pelos antigos conhecimentos de causa e conseqüência, sem negar a constante expectativa. E por mais que existisse o medo, por mais que existisse o ontem, não haveria dor alguma por qualquer cor que pudessem tê-la roubado. Meninas como aquela têm uma aquarela dentro de si.


- Texto de março / 2007

Outro dia



A mandante desse coração sou eu.
Por mais óbvia que a informação pareça, é impressionante acreditar que só agora ela faz algum sentido. Se as autoras de livros de auto-ajuda continuam ganhando milhões à custa das mulheres (nada) inteligentes, eu sei que hoje, para elas, já não é um dia tão bom: mais uma cliente se foi.

E foi tarde, visto o histórico comprometedor. Sei que alguns integrantes de grupinhos sado-masoquistas andaram me sondando e teve gente que se compadeceu por tamanha auto-piedade. Madre Tereza achou bonito, minha mãe achou triste e no tempo da inquisição alguém até acharia correto sofrer pela felicidade alheia. Mas em mim doeu. E doeu a ponto de eu me indignar, largar mão dos planos românticos e rever conceitos.

Porque tem gente por aí dizendo que o amor é dar sem pensar em receber. Tem gente achando que amar é esquecer de si mesmo e viver pelo outro. Assim como tem gente cometendo suicídio por amor na cidade próxima, e praticando auto-flagelação por amor no Iraque. Gente que inverte uns valores e exagera outros, transformando um sentimento que era pra ser tão bom em tortura medieval.

E eu acho, acho mesmo, que amor é entrega, é doação, é dedicação incondicional. Mas antes de amar o próximo desertor de tanta emotividade, eu amo a mim mesma, com a mesma falta de restrições. Só faltava esse estalo, esse carinho e atenção que só eu mesma, depois de uns tombos, poderia me dar.

Eu sei que demorou duas décadas pra que eu percebesse. Uma vida, uns baldes de lágrimas e duzentas caras inchadas. Mas já é definitivo: amor e dor agora só rimam em poesia vazia e barata, em qualquer coisa que seja o oposto dessa entrega que eu sempre tive e ofereci. Por mais que a realidade negasse, por mais que a minha essência insistisse.

A lei da gravidade continua fazendo jus ao nome, já que nada seria mais grave que deixar qualquer sonho de lado por algum percurso mal concluído. Eu quero manter meus pés longe do chão, mas preservar minha tranqüilidade intacta e me cercar desses cuidados que manterão minhas expectativas seguras. Porque quem foi feita pra amar agüenta tudo, e pode tudo, menos fugir da missão.

E, mais livre e segura do que nunca, eu me rendo a ela.


- Texto de fevereiro/ 2007

Meu universo numa casca de noz.



Ele sempre esteve ali. Dos desenhos pintados dentro da margem no primário às filas de banco direcionadas por adesivos no chão.
Limite é uma coisa invisível, mas sempre pronta para reclamar, ao menor sinal de ultrapassagem. Altamente inflamável, é feito de vivência, de experiência e de paciência, o que se torna bastante contraditório: é justamente quando a paciência acaba, que o limite aparece.

Algumas pessoas têm seu limite mais flexível, outras não. Outras achavam que tinham, não tinham, e hoje o têm porque o aprendizado as fez ter. Limites muitas vezes são confundidos com regras e muros. Eu gosto de pensar neles como uma moldura, algo que define a pintura que te faz quem você é. Tendo o universo fim, limites, ou não, eu acredito numa coisa simples:

Cada pessoa é um universo com seus limites.

Stephen Hawking escreveu um livro chamado "O universo numa casca de noz", onde explica o universo de maneira simples. Não que a compreensão do assunto se dê da mesma forma, mas se o cara foi capaz de transformar a astrofísica num assunto explicável, claro e bonito, eu devo ser capaz de fazer o mesmo com a minha vida. Mesmo que ela seja assim, do tamanho de uma casca de noz.

O livro te desafia a pensar. O universo de qualquer pessoa faria o mesmo, e o meu não foge à regra. É assim,igualmente complexo, como a vida de qualquer ser humano dotado de sentimentos e que tenha o hábito de utilizá-los.

Toda essa busca em princípios e teorias teve seu ponto de partida naquele dia, quando o meu limite resolveu gritar. Quando tantas coisas passaram a existir enquanto tantas outras me fizeram desistir. Querer entender essa realidade é o mínimo.

E o meu mínimo é me doar por inteiro a tudo o que eu fizer. Mesmo pra ser vencida pelo cansaço e entregue de bandeja à conformação.

Assim, condicionei minhas reações às ações do meu cotidiano. Domestiquei minhas circunstâncias a meu favor. Talvez até minha gripe seja reflexo de certa rendição a essa friagem.
Mas em meio a tanta adaptação, nunca abri mão dos meus limites. Cercada por desafios, eu soube diagnosticar a tortura e reivindiquei o meu sossego. Eu finalmente reagi.

Comecei a achar outras interpretações para aquela história fantasiosa de que "os seres humanos foram feitos para viver aos pares". Tenho aqui em mim mesma duas mãos, dois pés, dois braços e diversas outras duplas. Aliás, ninguém especificou do que seria composta essa parceria tão vitalícia e, por mais que a minha teoria possa parecer infundada amanhã, experiência e eu temos formado um casal sólido e inabalável. Amor profundo.

Porém, cercado pelas duras paredes dessa minha casca de noz, qualquer um é capaz de entender que a mudança veio, irá embora e eu não deixarei que ela mude essência nenhuma. Um coração que sempre falou, nunca vai parar de falar. Ele só anda meio cansado de gritar.

Do mesmo jeito que as culturas ocidental e oriental se diferem num mundo em cores e costumes, eu mesclo meus significados conforme a situação e a necessidade. Medicina alternativa para ferimentos de cura desconhecida. Preto e branco trazem luto de um lado e paz no outro. Mas se um universo possibilita convergências, o meu é bem capaz de fazer o mesmo. E hoje o meu luto significa paz.


Eu existo do jeito que aprendi a existir.



- Texto de fevereiro/ 2007

Fator de Proteção Solar



Corre pelas minhas veias um boato de que as coisas por aqui já não são as mesmas.

Tudo começou com um verão onde o fator de proteção subiu de 15, para 200. O emprego veio e muita coisa se foi. Assim como outras vieram.

Dizer que a rotina iria mudar seria pouco. Seria, quem sabe, uma porta aberta para insatisfações há tempos trancadas. Mudanças bruscas traumatizam, dão cãimbras, hematomas,estrias. Sempre marcam. Mas às vezes acontecem.E quando acontecem, deixam a gente assim, atordoado.

Mais do que vestibulandos em dia de prova, eu ando querendo respostas. Pelo menos algumas que solucionem a complicada e importante diferença entre a auto-preservação e o egoísmo. Pelo menos pra eu entender aonde é que eu fui parar nessa mudança toda e se a importância maior está em cuidar do que sou ou cuidar de como cuido dos outros.

Que parte de mim é essa que eu não conhecia? Desde quando a praticidade se tornou tão atuante assim nas minhas decisões? Como é possível que tão pouco tempo mude tanto de alguém?

Urgência. Adaptação. Um grito de socorro.
De repente eu devesse saber melhor como manter intactos certos aspectos e emoções daquela minha vidinha romântica, brilhante e com tempo de sobra. De repente os alicerces para que isso fosse feito não dependessem só de mim. O fato é que algo sempre se perde na mudança. E algo sempre se ganha.

Nesse meio tempo, eu abri mão de diversas coisas. De companhia, do sono, da paciência, do tempo (que, percebam, já está pela metade) e, quem diria, abri mão até do romantismo. A realidade, apesar de dura, cansativa e por vezes até cruel, pode até não encher meus lábios de mordidas de expectativa. Mas também não enche meus olhos do peso da expectativa frustrada. Um mar de rosas também tem espinhos.

Aproveitando as mãos abertas, também agarrei muitas coisas. Inclusive essa impressão de independência. E, sinceramente, ando gostando demais da segurança que tenho em olhar por mim. É como se eu tivesse me retirado das mãos irresponsáveis do mundo e me abrigado da chuva à qual eu mesma fiz questão de me expor. É tempo de secar, inclusive as feridas.

Poucas coisas estão concretas, mas o que eu sei é que estou bem. Tentando entender. Anestesiada pelo próprio aprendizado. Fluindo segura e livre. Não é fácil, mas evoluir nunca é.

Assim como a pele descascando nas minhas costas, certas coisas se renovam por vontade própria. E, sendo bem sincera, acho que esses passos eram tão necessários que passaram a ser involuntários. Assim como toda mudança que simplesmente precisa acontecer.

O verão segue e ainda não consigo negar minha admiração por toda a sua intensidade. E nem, lá no fundinho, a esperança de um outono daqueles. :)



- Texto de jan/2007

A velha história.




Eu perguntei pra Deus o que fazer. Não sei de onde a voz veio, mas era a mesma que sempre me dizia pra pensar um pouco em mim. Que só assim as coisas iriam sair bem e o conforto viria independente da situação. Mas o coração aqui pulsa. E você vive em mim de tal maneira que eu não consigo separar o emocional do racional, e sigo pensando que amar você assim é a coisa mais sensata a se fazer.

Passou a ser confuso quando se tornou um misto de sentimento e dor. A dor aqui nunca foi citada, sempre foi camuflada, jogada num canto. Nunca eu aceitaria a presença dela numa história tão bonita, tão concreta, tão fantasiada... por mim, sempre por mim. A autora dos meus romances e das minhas tragédias. A protagonista e a única atriz no final.

Eu nunca gostei de montanhas-russas. Nunca me agradou tuas oscilações que iam tão contra essa minha fábula do amor perfeito. De alguma forma tudo o que eu sentia por você era tão grande, e tão completo, que escondeu o teu lado. Esse lado que na verdade, nunca foi metade. Foi o tempo todo único, inteiro, emprestado, do jeito que aqueles vários livros de auto-ajuda iriam dizer pra que você não se envolvesse. Mas eu, eu não soube evitar. Eu não soube separar, e desde o início eu queria viver nos teus olhos, porque você já vivia nos meus.

E de repente a minha imagem nos teus olhos dividiu-se em três, quatros cenários, ocupando espaço junto com outros objetos da tua vida. A minha história encarava a realidade mais uma vez e mais uma vez eu era insatisfeita, sozinha, pequena. Querendo mais pra você, querendo o óbvio pra mim. Uma mão que segurasse a minha enquanto eu desenhasse as palavras da nossa história. Um colo que me envolvesse, enquanto eu me escondia desse mundo cheio de razões e friagens. Uma surpresa que viesse quando o sol não aparecesse. Uma resposta pra todas as vezes em que eu chamei. Sei lá, um coração vermelho e pulsando apaixonado, que só conseguisse me ver na sua frente, que só existisse dessa forma porque vive por mim. Porque eu vivo por você, eu sempre pulsei por você.

E desde que o silêncio se tornou capaz de gerar dúvidas, desde que o chão se tornou tão presente, as coisas têm sido frias. Eu me ocupo de preocupações, eu doso pensamentos e conto os olhares que dirijo àquela fotografia nossa em que eu saí sorrindo e você não. Eu sinto a cavalaria das minhas memórias se aproximando e, com crueldade, elas trazem pra mim tudo aquilo que na minha vida foi errado. Todas as vezes que eu chorei enquanto você dormia. Todas as frases sem resposta. Todas as vezes em que a minha mão quente segurava a tua, e a tua me soltava. Todos os cuidados esperados que não existiram.

Toda essa dualidade absurda que se forma na minha cabeça quando você me abraça e jura, diz e mostra que eu estou errada, que os fatos estão errados e que SIM, você me ama. .Aí eu tenho uma vontade igualmente absurda de que você estivesse bêbado nas vezes em que se acomodou, subiu a voz, fez de menos por mim. Eu esqueço por um momento e volto a ser sua como uma criança que volta a acreditar. Eu me recomponho, desafio o universo, danço por dentro. Até cair num passo malfeito e notar que a única dançando, sempre fui eu. A iniciativa, sempre foi minha. Os detalhes, bordados por mim. As decepções, sempre prontas para existir, aproveitaram tuas brechas e tomaram carona no teu ombro.

Talvez realmente existisse aqui uma certa profundidade. Talvez por isso mesmo que sentimentos rasos não consigam me tocar.

Não com atitudes rasas. Não com conclusões empíricas a respeito de algo que pra mim sempre foi tão concreto. E que, como concreto, há de ser duro, há de ser pedra, há de quebrar na queda .Há de ser tão cruel na defesa desses golpes que dou no ar, enquanto meu corpo trava essa luta invisível contra minhas dúvidas.

Porque até o que eu sei foi posto à prova. E o que eu sei é que eu tinha nos meus olhos uma ingenuidade e um brilho que só de pensar em você já transbordava em palavras. Hoje, eu sou o limite em pessoa. Eu me seguro e não há poesia. Há o mudo, há o cru. Há a soma de tudo o que foi insuficiente e torturante até agora. E há esse cansaço, que mata meu amor a cada descuido teu.
Por mais lindo que isso tudo me tenha parecido até hoje... já não sei mais o que é melhor pra mim.

Que os contos de fada continuem terminando em reticências, pra que não se precise prever o final. Pra que, em um futuro distante, quem sabe eu possa voltar a acreditar que alguém tomará o meu lugar e contará uma história bonita dessas por mim. Pelo menos uma em que não haja apenas uma protagonista.

Pelo menos uma em que o príncipe fizesse questão de existir...



- Texto de janeiro /2007

Imunidade




Dona Natureza é sábia. Antes mesmo de criar qualquer coisa, soube prever os danos. Ela imaginou que até a maravilha seria bem capaz de gerar porcaria e, muito atenta, resolveu se prevenir.

Criou os anticorpos. Os primeiros policiais e os mais potentes até hoje. Ao menor sinal de perigo, lá estarão eles, cumprindo seu papel de defesa do corpo humano. Eles cuidarão pra que nada te perturbe. Eles sim, são protetores.
Assim disse a ciência.

E, antes mesmo que a pobre menina fechasse seu antigo livro de biologia, a pontada veio. Doía fundo, a respiração era pouca, a garganta fechou. Gripe não era, porque gripe não faz chorar. Doença não era, e se fosse, era nova. Tão nova que o tal do anticorpo falhou, dormiu. E seguiu dormindo, por livros e livros, contaminando por dias e dias.

Até cegar seu único ponto de vista. Até tirar do tempo, a razão.

Mas a natureza é sábia. Até o colírio precisa de sal. E, de tanto arder, um dia ela viu. De tanto gritar, aquele anticorpo ouviu. Como naquela festa de ano novo, tudo começou do zero, sem nem precisar haver um. Voluntária ou não, a cura agia. E ela, assustada, fingia que nem percebia.

E não deu pra evitar. A defesa era natural. Nem os pensamentos venciam.
E, por mais que o emocional nunca fosse o oposto do racional, seus sentimentos machucados sabiam: se defender é instintivo. Mesmo quando a gente não nota o perigo.

Lentamente. Ferozmente. Acumulando reforços e, quando a gente vê, a guerra acaba. Você acorda, você percebe, reivindica a própria paz. E a violência tem fim.
Mas a cura não.

Anticorpos, mesmo os de sentimentos, ainda são a melhor (e inevitável) solução.
Depois de tanto flutuar, não doeu voltar pro chão. Depois de tanto procurar, ela se deu a própria mão.

Mesmo quem ama, se defende ao mesmo tempo que tem paciência.
Assim disse a vivência.




- Texto de janeiro/ 2007

Não precisava.




Eu não pedi a Deus pra que você aparecesse. Também não pedi pra não aparecer.
Mas não precisava ser assim, ser agora, ser no meio de tantas situações.
Finalmente, quando eu podia enxergar nitidamente o mundo, você se coloca entre mim e ele. E de repente não resta mais nada.
De repente, você é a janela. De repente, dúvida vira constatação.
Tão de repente que não precisava.

Você não precisava ser assim simpático. Não precisava ter esse jeito de falar. Não precisava saber meu nome, nem se aproximar tanto, nem existir tanto.Você não precisava estar ali.
Mas você é, fala, se aproxima, existe e me olha de um jeito que, talvez eu realmente esteja viajando, mas é você quem paga as passagens.
Tão intenso que não precisava. Tão suficiente que não precisava.

E eu me sinto a idiota de sempre. Eu faço dos meus sonhos, meus maiores pecados. Eu vi algo de mim em você e mesmo sabendo que não posso, não devo, não ousaria e NÃO PRECISAVA, mergulho. E nado em você por todo o tempo.
Porque o tempo, apesar de precisar, já não existe.

De repente me instiga, me sufoca, me chama. De repente, deixa o mundo existir outra vez.
De repente você está lá, nadando num mar distante do meu. Vivendo uma história que não é a minha. Existindo em mais lugares do que supõe.

É... não precisava.
Mas já preciso.



- Texto de dezembro/2006